sábado, 27 de junho de 2020


A Criança e as Pandemias – Parte III
     Continuando este tema da exposição da Criança às diversas Pandemias que vivemos, vamos refletir sobre o mundo que estamos oferecendo para nossos pequenos. A covid19, a violência, a negligência intrafamiliar, a negligência social, a pandemia do esvaziamento de afeto, o egoísmo, a desresponsabilização, a tecnologia, são pandemias que acometem a Criança e sequelas serão guardadas ativas em sua mente em formação.
      Retomando a pandemia do egoísmo, que, essencialmente, estabelece um binômio eu/eu, onde se resume o único critério de escolha, “eu quero só para mim” e “eu não quero ter nenhum prejuízo”, o primeiro é o “é bom para mim” e o segundo “é ruim para mim”, temos desdobramentos afetivos e sociais que impedem o bom exercício da cidadania. Os códigos morais passam a ser regidos pelo egocentrismo.
     A pandemia da desonestidade vai além da financeira.  Influenciada pelo egoísmo, com seus pilares individualizados longe do coletivo, chegamos à desonestidade afetiva, à desonestidade intelectual, hoje tão banalizada. Há argumentos inacreditáveis para justificar a manipulação e distorção de conceitos e princípios. Depende! Este é sempre o início da frase quando se indaga qualquer coisa, até se matar, ou roubar, é errado. Tudo pode vir depois deste “depende”. A flexibilidade é imensa. A judicialização, crescente, também é acometida por decisões ilógicas, sem um pingo de bom senso. Os Direitos da Criança são violados, pela própria justiça. Uma criança pode ter sua guarda invertida por uma alegação verbal, que evoca a locução alienação parental, sem prova material e sem aferição do referido comportamento da mãe, enquanto ainda é amamentada ao seio, cumprindo mandato de busca e apreensão efetivado por policiais. E a amamentação dela? E os cuidados maternos, indispensáveis na 1ª infância, que perde de uma só vez? O entendimento é que aquela mãe faz mal aquele ainda bebê porque fala mal do pai. Leis existem. Belíssimas. Mas há também a pandemia da desobediência, da transgressão estrutural. É como se vivêssemos uma lavagem de direitos. Eles existem, mas são interpretados na contramão.
     A Criança cresce convivendo com a pandemia da corrupção. Ela está dentro do carro quando vê o pai negociar com um agente do trânsito uma multa que seria aplicada a ele. Ele viu que o pai furou o sinal vermelho do cruzamento, e viu também que o pai deu um dinheiro para que o guarda não completasse a papeleta da multa. A transgressão combinada com a corrupção é uma aprendizagem que fica inscrita na mente da Criança, que a levará como natural. O jargão de que o fim justifica os meios vai se cristalizando banalizado. Encontramos corrupção em profissionais que deveriam, por Código de Ética, seguir leis de Proteção da Criança.
     Se pensarmos numa mala de pandemias, do egoísmo, da negligência social, da desonestidade, da lavagem de direitos, surgiria disfarçada a pandemia da pedofilia. Na naturalização da pedofilia, hoje na tentativa de se alojar sob um título de preferência sexual, apenas. Caminhando para uma sonhada legalização, a pedofilia vem se alastrando, sustentada pela banalização. Acobertada pela Lei 12.318/2010, a chamada lei da alienação parental, termo que não tem comprovação científica, e foi cunhado por um médico americano pedófilo, em cima de uma fase de luto pelas emoções de perda, de frustração, de sofrimento relativo ao término de uma relação conjugal. Nada de novo. Somente o neologismo usado para calar Crianças e mães que denunciam abusos sexuais incestuosos. Servindo como tapete para onde são varridos os crimes de pedofilia. O abuso sexual é praticado, em sua grande maioria, por pai, avô, padrasto, tio, primo, irmão mais velho, entre 65% e 85% dizem as pesquisas, e tem como fator a submissão afetiva, é alguém que a Criança ama e obedece. É definido pelos estudiosos, pela sua característica de repetição, como a exposição ao extremo estresse, que além de causar traumas psicológicos, danifica o sistema límbico e o sistema neurológico, atrofiando estruturas cerebrais e suas funções. A violação do direito de ser cuidado pela mãe e o direito de mãe, são endêmicos no judiciário. Afinal, qual é a lógica de entender que faz mal a mãe “alienar” o pai, mas este mesmo objeto, a “alienação”, é usada para punir esta mãe, então, a justiça aliena a mãe. E acreditem, esta não é uma reserva particular do nosso país. Nossa exclusividade é de ter uma lei para uma locução falsa, como afirma o Presidente do Comitê de Direitos da Criança da ONU, Luis Pedernera.
     A pandemia da Miséria Psicológica. É a morte da esperança. É a descrença no outro, quando se é ainda vulnerável, indefeso. Ela é alimentada pelo vírus com a morte, pela violência, pela negligência, pela desonestidade afetiva, pela corrupção de valores, pela pedofilia que sustenta a exploração sexual intrafamiliar, o novo formato da parte mais miserável dos humanos.
     Infelizmente, mais uma tragédia da Miséria Psicológica aconteceu nesta madrugada envolvendo Criança. Eram duas crianças que estavam brincando às 02.00horas da manhã. Uma delas morreu com um tiro na cabeça, disparado da pistola da outra que era novo no tráfico. Uma tinha 11anos, a outra tinha 10 anos. Quantas perguntas brotam: a hora, o aliciamento do tráfico, as famílias, uma arma... A Miséria Psicológica de todos nós se isentará da culpa e dolo desta tragédia. Foi lá na favela. A responsabilidade é nossa. De todos.


A Criança e as Pandemias – Parte II
     São muitas as Pandemias que acometem o desenvolvimento saudável das Crianças, para muito além da Covid19. E não passam. Parece que estão cada vez mais estruturadas e naturalizadas. A Pandemia da Negligência com as crianças tem amplo acometimento na infância. Se considerarmos as inúmeras situações em que a criança é deixada sem os cuidados que lhes são devidos, as dimensões da Negligência excedem o que se convencionou.
     Facilmente, pensamos na situação padrão de negligência: a criança suja, sem alimentação regular, roupas velhas e inadequadas, sapatos menores ou maiores que seu pé, sem frequentar regularmente a escola. Mas, a negligência tem vários cenários. Pode estar presente quando a criança está bem alimentada, bem vestida, bem ocupada numa boa escola e com inúmeras atividades extracurriculares. Piano, futebol, natação, judô, balé, inglês, tudo encaixado em horários compactados pela semana, de tal maneira que não lhe sobra tempo para demandar nada dos pais. A terceirização e fragmentação da maternidade e paternidade fazem parte da infância O que é negligenciado é o afeto, o aconchego, o olho no olho, que não tem lugar na vida do mini-executivo.
     Crianças que se desenvolvem em meio vazio de afeto, serão incapacitadas para a empatia, fundamental ao exercício de cidadania. É a Pandemia do Egoísmo. E, sem conseguir sentir empatia, sem conseguir se colocar no lugar do outro, estas crianças, crescem submersos em competitividade, diuturnamente. Notas de avalições, escores de resultados em competições dos esportes que praticam, tudo está voltado para quem é o mais sobre os outros. Sem a experiência da empatia, não formamos líderes, só chefes que usam de autoritarismo. Excesso de competitividade leva à ausência de valores humanitários. Ser chefe é mandar no outro tendo o egoísmo como único parâmetro. Portanto, sob a égide do egoísmo, os escrúpulos são rarefeitos. A inexistência de aquisição da noção de coletivo e de coletividade é responsável pelo enraizamento do próprio umbigo como princípio e meta. A liderança, no entanto, é construída por experiências afetivas, considera o coletivo, e por isso é sustentável, e leva ao exercício da liberdade.
     A Pandemia do Egoísmo patrocina a Pandemia da Desresponsabilização. A Cultura do descomprometimento é o seguimento do mecanismo de defesa infantil de jogar a responsabilidade e a culpa dos atos que não rendem louros e destaques, sempre no outro. Ou seja, tudo o que dá errado não é assumido, a autoria é, automaticamente, passada para o outro. A Desresponsabilização favorece os comportamentos infantilizados da inconsequência.
     Enquanto isto, em outras casas, crianças sofrem a Pandemia da Negligência Social. Esta é extramuros. Crianças pequenas que ficam sozinhas em casa esperando a volta da mãe de seu irregular trabalho. Muitas vezes aquele “mundo” apertado é rasgado pelo ruído repetitivo de rajadas de metralhadora, e tiros de fuzil que transpassam aquelas frágeis paredes. Todos ao chão até que volte o silêncio que, não raro, vem aos gritos de choros desesperados. A Negligência Social se mistura à violência, a social, e também a doméstica. A Pandemia da Violência perpetrada contra a criança, vivida ao vivo, vem deformando a mente humana. Das crianças que ali vivem, das que vivem a alguns metros, e usufruem de uma ilusão de urbanismo e sociedade. Esses dois tipos de território são separados por muros transparentes blindados que não permitem a livre mobilidade urbana. Talvez tenhamos, com as nossas cores nacionais, um agravamento da pandemia da violência, pelas nossas peculiaridades de rachadura social. Mas a violência é um nefasto fenômeno mundial a despeito de nossa evolução epistemológica em todos os campos das Ciências.
     O abandono social de crianças, por aqui, abre uma fenda em territórios paralelos, verdadeiros Estados paralelos. Com leis e governos próprios, sem educação, sem saúde, sem condições básicas de energia elétrica, de água, de esgoto, sem urbanismo, sem segurança pública, são territórios que deixam à mostra as vísceras apodrecidas de uma sociedade que não cuida de suas crianças.
     Estas Pandemias vão se banalizando, silenciosamente. Nem as enxergamos mais como tal. Crianças crescem em meio a elas. São confundidas com modernidades, com avanços, com mudanças sociais. Mas, não devemos nos enganar pela sedução de um aparelhinho tecnológico, mais um item da negligência com o esvaziamento dos afetos. A Pandemia da Tecnologia dependente é mais uma nefasta influência que acomete as crianças atualmente. É a terceirização da maternidade e da paternidade, do aprendizado via “Dr. Google”, de tal maneira que empurra para atalhos, muitas vezes distorcidos e contorcidos, fazendo perder a aquisição da capacidade de raciocinar, de pensar, de refletir, ainda em desenvolvimento.
     Algumas outras Pandemias serão abordadas na próxima semana. A Pandemia da Desonestidade, a Pandemia da Corrupção, a Pandemia da Pedofilia, a Pandemia da maior das misérias, a Miséria Psicológica.


A Criança e as Pandemias – Parte I
    São muitas as pandemias. O novo corona-vírus está emprestando a dimensão do termo “pandemia”. Mas, esta denominação não se restringe à covid-19. Temos várias pandemias não declaradas por nenhum órgão internacional. Seu caráter pandêmico fica sempre mitigado pela própria sociedade, por grupos que as defendem em troca de Poder. Temos a pandemia de preconceitos, a pandemia do racismo, a pandemia da violência, a pandemia de violência contra mulheres e crianças, a pandemia da pedofilia. Leis não faltam, mas transgressões também não.
     Somos uma Sociedade Cenográfica. O papelão é material muito usado para fazer de conta que há limites entre sistemas que, na essência e na efetividade, são fictícios. E seguimos fazendo de conta. Somos responsáveis por todas as vítimas de todas estas pandemias, em ação e omissão.
     Este tipo de “Estado” é muito danoso para a formação das crianças e adolescentes. Se já é difícil tecer o esboço do necessário código moral, construindo regras éticas, para ingressar, saudavelmente, na vida em grupo, com princípios humanizados, certamente, se torna impossível esta construção com o relativismo, o direito a privilégios ou a punições arbitrárias no oscilante “faz de conta” reinante.
     Não é difícil visualizar os efeitos do isolamento pela pandemia da covid-19 para uma criança. A pergunta que se repete, quando vai acabar esse vírus, que segue sem resposta daqueles adultos em quem depositava a confiança do “saber tudo”. Talvez, esteja sendo o primeiro choque de realidade do tamanho destes adultos. Estão aprendendo que eles sabem quase tudo. A agitação motora que só cede quando entra o joguinho eletrônico. E daí deste espaço virtual não sai mais. A convivência exaustiva com os pais, o que nunca fez parte de sua experiência anterior.
     Assim como o planejamento da flexibilização é programado em fases sob critérios de medição, também as crianças passam por fases durante o isolamento. Uma primeira fase foi a “delícia” de ter pai e mãe por 24 horas, 7 dias por semana, desobrigadas de ir à escola. Mas esta anormalidade, aparentemente deliciosa, tem um prazo de validade. A ausência da escola, até então comemorada, surge como uma falta insubstituível, falta da sala de aula, da professora, do recreio, falta da rotina, falta de toda a atividade escolar. As conversas com os amigos, mesmo que pareçam monossilábicas, mas se esbarrando. O mundo virtual não preenche este mundo real, mas oferece uma saída para um mundo paralelo. Enganoso, mas ofuscante, e de resposta imediata.
     No entanto a criança necessita mais precisamente da sua própria fantasia. De cria-la, de viajar nela e de sair dela quando decide. O mundo virtual dos joguinhos lhe oferece uma “fantasia” pronta, mas que tem vida própria. Não lhe satisfaz em suas necessidades de desenvolvimento. A velocidade de resposta digital não é suficiente, apesar de ser aprisionadora. A pandemia do vírus empobreceu a saúde física e mental das crianças, empobreceu a construção da vida afetiva delas. 
     A desordem se instalou dentro das células sociais, as famílias. E com ela, as alterações do curso do desenvolvimento. Crianças expostas aos temas de adultos, com os humores alterados pela vivência do forte sentimento de impotência, regado a medo. Mas, antes, durante e depois, a pandemia dos preconceitos. Temos muita dificuldade de conviver com diferenças e diferentes. Eles nos ameaçam porque nos fazem sair da famosa zona de conforto. Se não é igual, não sabemos como é, e temos medo da aproximação. Qualquer traço do perfil do outro pode gerar um preconceito que deixa como saldo a falsa sensação de que, por um atalho, chegamos à conclusão sobre aquela diferença. O preconceito é a expressão da fixação numa fase do desenvolvimento cognitivo em que a criança só raciocina com uma única variável. E, por isto, ela incorre em erro. Esta é uma pandemia que dá lugar a outra, que hoje grita por todos os cantos do mundo: a pandemia do racismo.
     Uma criança pequena, quando perguntada o que está vendo numa foto de duas crianças abraçadas, fala “um menino e uma menina abraçados”, sem se referir a cor da pele deles. Mas, o racismo estruturado traz para ela o adjetivo da cor da pele, que caminha no sentido de se tornar o sujeito da frase. No mundo adulto ela aprende desde cedo a diferenciar a cor da pele das pessoas e pela cor lhe atribuir adjetivos plenos de preconceitos.
     Vivemos agora, mundialmente, uma primeira reação consistente da sociedade que questiona esta condição estrutural do racismo. A pandemia do vírus não foi capaz de deter a indignação das pessoas. E os protestos desafiaram o vírus. Mas, se as pessoas foram capazes de se levantar contra uma imagem de opressão racista explícita que mata, entre nós, não conseguimos reclamar do adolescente que também morreu de opressão racista explícita. O joelho ou o fuzil, mas a naturalização deste tipo de conduta já é estrutural em quase todos.
     A pandemia da violência contra a mulher é responsável pela opressão e morte de muitas. O Feminicídio e seus índices galopantes. Não adianta ter uma lei, Lei Maria da Penha, específica e competente, se não temos Políticas Públicas consistentes e consequentes. Falta a educação do respeito e da empatia. O desejo de Poder absoluto destrói as palavras que deveriam preencher os lugares interpessoais. E, como crianças, que ainda não adquiriram um esboço de código moral, de código legal, vemos adultos agredindo, violentando e matando mulheres, na maioria das vezes dentro de casa, portanto na frente das crianças. Este é um comportamento que ensina para as crianças testemunhas a violência e a submissão, ambas nocivas à vida em grupo.
     Neste caldo sombrio, temos a pandemia do egoísmo. Não há coletivo, Valoríza-se o narcisismo, antes de tudo. Crianças que não aprendem a pensar e sentir no coletivo, não são capacitadas para a empatia e para a cidadania. E mais, não serão líderes. Só conseguirão ser “chefes” porque se acostumaram ao egoísmo e ao eixo dominador x dominado, opressor x oprimido. Uma sociedade sem líderes é uma sociedade pobre de humanidade.



domingo, 17 de maio de 2020


Desenvolvimento Afetivo, como nos tornamos humanos – Parte V
     A ausência de afeto no início da vida traz um dano permanente. O alimento afeto deve ser doado de forma regular, com pequenas variações na frequência e na intensidade, pela pessoa preferencial para o bebê. Esta preferência é facilitada e promovida pelo reconhecimento do cheiro, da voz, do tônus ao segurar o bebê. A repetição destes dados trará para o bebê a segurança e confiança nesta pessoa preferencial. Como a mãe tem o privilégio da conexão visceral, esta condição é facilitadora para a dupla mãe-bebê. Mas, no caso da substituição materna, o bebê tem uma boa tolerância para refazer esta conexão, carregando sua expectativa da sua demanda de satisfação do colo, enquanto cuidados de sobrevivência, nutrição/higiene/sono/afeto, e a mãe substituta terá este espaço, podendo construir um vínculo materno genuíno. A tese da ligação biológica tem sua importância quando ela for continuada, mas não é impossível a realização desta substituição. Isto ocorre com as crianças que são adotadas sem que haja um abrigamento que quebre este provimento de afeto. Ou seja, crianças que têm seu vínculo víscero-afetivo materno rompido e que vão para um abrigo por meses ou anos. Quanto maior for o tempo de uma criança no sistema de abrigo, sem uma relação afetiva materna, maior será o dano do desenvolvimento afetivo. A possibilidade de ser capacitada para confiar no outro, e se comportar como humano, é diretamente proporcional ao afeto regular recebido sem interrupção.
     É preciso entender o que significa a carência afetiva, esta condição que aprisiona o indivíduo na busca incessante de relações de dependência. A carência não corresponde à ausência completa ou parcial de afeto. Por vezes há um descompasso entre o afeto ofertado e como é sentido este afeto pelo bebê. Assim, mesmo sendo alimentado afetivamente, por alguma razão, o bebê não é satisfeito em sua necessidade particular de afeto.
     Dependências. O afeto, ou melhor, o não-afeto, em qualquer grau, é um fator preponderante para os comportamentos de dependências diversas. Dependência afetiva, dependência química, passando pela dependência alimentar, a busca pelo afeto não alcançado leva a se submeter a relações abusivas, leva à busca da ilusão do prazer imediato, leva à sensação do conforto compulsivo no estômago. Estes comportamentos aparecem, socialmente, na juventude. Mas, o início de todos estes distúrbios de expressão por dependências reside na infância. É a ausência ou a precariedade, por intermitência, por instabilidade, ou por frieza e distanciamento, que desvia ou corrompe a possibilidade de um saudável desenvolvimento afetivo.
     Se a desconfiança afetiva pela instabilidade dos cuidados impede a confiança na construção de relações saudáveis, numa tormenta sem fim, o aniquilamento afetivo, resultado de afetos oriundos de violências, pode vir acompanhado de perversidade, de crueldade, mantendo o ciclo da repetição quase compulsória.
     O comportamento da imitação, por exemplo, faz parte dos processos de identificações, que trazem o conforto subjetivo da sensação de pertencimento. A pertinência a um grupo acalma a angústia de desamparo. Esta rede, abandono, desamparo, solidão, versus proteção, força, passa a fornecer uma garantia quando o estresse ameaça a mente. O funcionamento afetivo é muito dinâmico, sempre mistura várias emoções, até mesmo contraditórias, ganhando sentido, muitas vezes durante o percurso de cada experiência afetiva.          
     Entenda-se que, o alimento da geladeira para os obesos é a representação do afeto não recebido. Assim como a cocaína ou o álcool, ou as escolhas sucessivas de relações abusivas, também simbolizam o afeto que faltou ou foi agressivo. É preciso, pois, compreender que o afeto não saudável produzirá uma lacuna que fomentará uma busca incessante pelo nutriente afeto, deslocado, então, para novos objetos simbólicos.
     O conceito de saudável relativo ao afeto refere-se à adequação de necessidade x satisfação de saldo positivo. Ou seja, que a soma de acertos de satisfação seja bem maior que a soma de erros e frustrações, que, claro, existirão sempre. Não há problema em errar ou frustrar um bebê em sua demanda de afeto, caracteristicamente, de pedido imediato. O intervalo de tempo entre o pedido e a satisfação também ensina o esperar, tão importante para seu desenvolvimento. Também o equívoco na resposta materna pode ser um aprendizado de tolerância, essencial para a vida toda.
     No entanto, o problema dos efeitos nefastos das alterações do desenvolvimento afetivo está não só no abandono que é a expressão da ausência afetiva, mas, na presença de afetos agressivos continuados por muito tempo da infância. Afetos mal tratantes, afetos de violência física, sexual e psicológica, que imprimirão uma tatuagem na alma da criança, levando-a à condição de submissão nas relações com o outro. Há ainda a pior das possibilidades: a impossibilidade de se humanizar. Estas crianças, gravemente marcadas por afetos de violência, não serão obstruídas na sua aquisição da capacidade de empatia. Não conseguirão viver a cidadania, a solidariedade e a compaixão, até mesmo por aqueles que ela venha a prejudicar.
 “Se, ninguém sentiu compaixão por mim quando eu era criança e precisava de proteção, ninguém merece minha compaixão”.
     Abordaremos ainda este tema em suas consequências e patologias na próxima semana.


Desenvolvimento Afetivo, como nos tornamos humanos.  Parte IV.
     Com a ONG Vozes de Anjos, nosso principal crédito pela importância e extensão da meta de Proteção à Infância e à Maternidade, pensamos cada vez mais na imensa dimensão da construção do afeto, esta viga da existência de todos. Pensar o afeto de cada indivíduo em contexto de coletividade, nas tendências de comportamento de uma sociedade, tem sido um desafio. O hoje pelo coletivo das crianças, o hoje pelo coletivo dos adultos, as crianças de ontem, que hoje são os modelos de afeto destas crianças. O afeto recebido hoje por uma criança/filho será o combustível do afeto que ela dispensará na vida adulta para a criança/filho que cruzará seu caminho amanhã, numa cadeia sequencial.
     Importante lembrar que a criança precisa do afeto e dos cuidados da mãe do nascimento aos 7 anos.  Entenda-se aqui que a importância da mãe, o cuidado dela, o olhar dela, o colo dela, durante a primeira infância, constitui-se o alicerce para o desenvolvimento saudável. Não estou excluindo o pai, sua importância complementar nas primeiras relações, é inconteste. Mas, o alimento afeto vem com primazia da função que a mãe exerce. O pai entra na vida mental como o que traz a lei, o ordenamento. E por isso mesmo, uma criança não deve ser afastada de sua mãe na primeira infância. O abandono materno quando ocorre, causa um dano de difícil recuperação. A substituição da função materna é aceita pela criança porque ela tem noção de sua dependência deste afeto e do cuidado que precisa para sua sobrevivência. A relação paterno-filial que, gradualmente é construída, tecerá uma malha de identificações onde o vínculo será seu eixo. O vínculo não é aparente, não é convivência, não está submetido à obediência, nem mesmo a existência concreta. Explicando: uma criança pode desenvolver um ótimo vínculo com a memória do pai já morto. O Vínculo é da ordem do afeto sentido. E, mesmo que alimentado por expressões reais de afeto, ele pode também ser construído pelo discurso do ambiente materno que passa uma figura de referência para a criança.  
     Dos quatro vetores do desenvolvimento psicológico da criança, que já abordamos aqui nesta Coluna, o afetivo é o único que é, essencialmente, receptivo. O desenvolvimento motor, o linguístico, e o cognitivo, são vetores que mantêm uma dinâmica troca de estímulos-respostas, e que tem a força da natureza como aliada. A força do processo natural é determinante e impulsiona o crescimento para sustentar a cabeça, para segurar um pincel, para articular uma palavra-desejo, para repetir uma ação com a intenção da obtenção de uma satisfação. Todos, comportamentos proativos.
     No entanto, o desenvolvimento afetivo tem característica, essencialmente, passiva. Melhor dizendo, o afeto, que é necessário e perpassa todos os outros modos de crescer, é esperado passivamente. Ele é um vetor de desenvolvimento receptivo, sem muita iniciativa da criança.  
     O egoísmo dirigido pela busca ameaçadora da sobrevivência é a condição comum a todas as crianças nos primeiros meses e anos de vida. O alimento nutriente traz a angústia da fome pela dependência de ser alimentado. O alimento afeto é preciso ser garimpado pelo bebê nos olhares, sorrisos, aconchego, no colo materno, preferencialmente. E seu trabalho para ser amado começa aqui. E não é difícil imaginar o quanto é árdua essa construção, da qual ele fará uso por nutrição todos os dias da sua vida. A incerteza dos afetos que o bebê entrará em contato, tem que se submeter à experiência. É um aprendizado afetivo, que nem sempre é possível, porque há afetos que confundem, que esfriam, que destroem.
     O alimento afeto aparece de várias formas. Logo o bebê conseguirá estabelecer uma espécie de compromisso, mesmo dentro de seu egoísmo, de dar afeto para receber afeto. Mas nesta relação afetiva que vai sendo construída pela díade mãe-bebê, numa via de dois sentidos, num vai e volta contínuo, o afeto recebido pelo bebê pode ser saudável, cuidadoso de qualidade. Pode vir em ausência de afeto. Pode ser um afeto raivoso, agressivo. Pode ser um afeto dissimulado, ambivalente, hoje amor, amanhã ódio.
     Cada tipo de afeto produz, no serzinho em formação, tipos diferentes de afeto que influenciarão o perfil, influenciando a saúde ou a doença mental no futuro. Efeitos e estragos vão sendo sedimentados.
     Continuaremos o tema na próxima semana, abordando a carência afetiva, a condição que aprisiona o indivíduo na busca de relações de dependência, o aniquilamento afetivo, que pode vir acompanhado de perversidade, ou a desconfiança afetiva que impede a construção de relações saudáveis, numa tormenta sem fim.


Desenvolvimento Afetivo, como nos tornamos humanos. Parte III
     A difícil tarefa de traduzir afeto em palavras deixa sempre o gostinho de é mais do que isso.  Mas, talvez o colo seja a palavra mais difícil de definir. Para muito além da configuração física, colo é acolhimento, colo é proteção, colo é segurança, colo é acalanto, colo é limite, colo é cura, colo é aconchego. Mas colo também é não, colo também é desespero, colo também é violência.
     Colo talvez seja a figura que mais se aproxima do conceito afeto. O colo e a necessidade dele permanecem. É um equívoco associar afeto com carinho, beijos e abraços. Como também é equivocado pensar que vínculo afetivo familiar é resultado de convivência.  O vínculo afetivo é uma construção que processa vários elementos por vias sensitivas, todas, vivências, construção que sediará o alicerce de todos os vínculos que surgirão durante a vida. A importância da sensação de segurança prazerosa é a primazia do desenvolvimento afetivo.
     O afeto tem roupas e formas variadas. Mas são as suas qualidade e intensidade que vão se aglutinando em construção, e que o tipificam. O afeto, em sua qualidade predominante recebida, é constitutivo de caráter. Afetos de raiva, de inveja, de desprezo, vão aglutinar atitudes correspondentes, que desenharão o perfil de resposta de alguém, agressivo, invejoso, insensível. Ou seja, a criança que sofre carência de colo/afeto, carência de cuidados básicos de qualidade, será um adulto que pouca ou nenhuma capacidade empática terá. Para se defender da dor do abandono sentido, mesmo que haja presença física, ela pode não ter satisfeitas suas necessidades afetivas, e cristalizar esta defesa para se anestesiar da dor. Há um ressecamento afetivo, que funcionará como um terreno defendido do “risco” de afeto. Sentir afeto passa a ser arriscado, não sabe o que fazer e percebe como se passasse a perder o controle da situação, como se o outro passasse a ter o domínio.
     Por vezes, a dureza da realidade afetiva é difícil de ser suportada, então a mente lança mão do imaginário como saída em momentos críticos. Não raro a criança maltratada ou que sofre abandono intrafamiliar, busca consolo em saída imaginária. Fantasia frequente é que ela é filha de rei e rainha, que virão resgatá-la a qualquer momento, porque assim ela diminui a dor, aqueles não são seus pais verdadeiros e por isso não gostam dela. Mas, mesmo usando a imaginação como defesa, ela não se perde da realidade, mesmo que dolorosa.
     O colo/afeto permanece e nos acompanha por toda a vida. Costumamos pedir colo, a alguém da confiança afetiva, quando, na vida adulta, nos deparamos com uma decepção amorosa, por exemplo. Não devemos considerar isto uma atitude de regressão, é saudável deixar que a dor tenha fluidez, possa ser sentida e, daí, elaborada para que uma nova organização afetiva ocorra, nos proporcionando a superação do processo de luto por um amor findo. Este movimento foi aprendido na infância quando uma queda com um machucado, uma frustração difícil de suportar, nos levou ao colo de quem podia nos consolar e fortalecer, nos colocando, após o tempo adequado de sustentação, de volta para a batalha da vida. Se este processo de nutrição afetiva de qualidade foi bem executado, podemos enfrentar as dores da vida.
     No entanto, se este processo foi falho, intermitente por algum motivo, ou foi interrompido, consequências nefastas podem se constituir como defesas contra o sentir. E é este processo edificará nossa memória afetiva. Não esquecemos jamais as experiências de fortes e intensas emoções. Uma criança pode guardar uma imagem, por exemplo, a repetida imagem do avião que levava o corpo de Tancredo Neves, recém eleito, percorrendo algumas capitais brasileiras. Lembram? A criança tinha apenas 5 anos, não sabia quem era Tancredo, não sabia o que era eleição, não sabia ainda muito sobre a morte. Mas, a emoção que ela captou da mãe, do pai, o silêncio paralisante daquele momento, fez com que aquela imagem na televisão tivesse um lugar em sua memória afetiva. Precisamos entender que, ao longo da infância, várias partes de ocorrências são arquivadas, às vezes em forma de imagem, às vezes, com mais complexidade de compreensão, em forma de luminosidade, às vezes em forma de som ou de cheiro, ou gosto. Os sentidos produzem memórias para nosso acervo, muitas vezes de difícil encaixe, mas sempre verdadeiras porque foram as experiências de afeto possíveis naquele ponto do desenvolvimento.
     Assim como a memória guarda estas lembranças afetivas, ou pedações delas, a cognição é muito importante para o bom armazenamento dos afetos, e a elaboração dos efeitos danosos que marcam nossa mente. Poder pensar um episódio afetivo é de grande valia para a saúde mental. Não falo em supremacia de nenhum dos vetores do desenvolvimento, o motor/neurológico, o linguístico, o cognitivo e o afetivo. Refiro-me aqui à sintonia, ou à desconexão de aspectos da mesma vivência, que se sedimentarão favorecendo ou desfavorecendo a saúde mental da criança.
     A memória afetiva, este arquivo de nossas vivências, as mais genuínas, é responsável pela nossa humanicidade. É o que nos torna humanos, capazes de estabelecer relações entre os iguais e os diferentes.


Desenvolvimento Afetivo, como nos tornamos humanos.  Parte II.
     Continuando nosso texto sobre a aquisição da capacidade de sentir afetos, transcrevo aqui uma parte de um capítulo escrito por mim, do livro Cuidado e Afetividade, publicado em parceria Brasil-Portugal, por duas Universidades Públicas de Direito, em colaboração com um time de autores das duas nacionalidades. São muitos os autores que se debruçam sobre o afeto. No referido artigo, escrevo:
     Harlow, fisiologista, estudando a relação afetiva mãe-bebê, e suas repercussões, experimentou com bebês chipanzés a importância da necessidade de apego na falta da mãe. Bebês chipanzés, que têm comportamento de cuidado e afeto com filhotes semelhante ao comportamento dos humanos, que haviam perdido suas mães por ocasião do nascimento, após período de privação de alimento, eram expostos a duas “mães” diferentes. Uma mãe era montada de arame e tinha uma mamadeira com leite onde era possível o bebê saciar sua fome. Outra mãe era confeccionada de trapos e lãs, tinha um colo aconchegante, mas não tinha nenhum alimento. As duas “mães” ficavam em um ambiente onde os bebês chipanzés órfãos podiam escolher qual mãe iam buscar. O que foi observado na pesquisa foi que a grande maioria dos bebês procurava a “mãe” de arame que fornecia leite, e saciada a fome, eles iam se alojar no colo da “mãe” de panos. No entanto, o que a pesquisa evidenciou é que havia um número considerável de bebês chipanzés que se aconchegavam no colo da macaca de panos, e, contrariando o instinto de preservação da espécie, chegavam a morrer de inanição por não suportarem o leite no arame, sem aconchego. Esta experiência corrobora a descoberta de Spitz sobre o conceito do hospitalismo.
       Todos os autores da Psicologia do Desenvolvimento e da Psicanálise escreveram teorias tendo como ponto central o afeto. Freud, Anna Freud, Klein, Winnicott, Mahler, Spitz, Piaget, Bion, Lacan, Kohut, Soulé, Bergès, Bergeret, todos deram ênfase ao afeto como a condição que permeia os vetores do desenvolvimento.
       É o afeto que faz a diferença entre curvas de desenvolvimento díspares. E não só a presença ou ausência, mas, na presença, é a qualidade do afeto que importa para estimular o crescimento e garantir a saúde psíquica da criança. Temos evidências desta importância quando verificamos os quadros psicossomáticos da Psicopatologia da 1ª infância reativos à qualidade ou ausência do afeto recebido pelo bebê e pela criança.
       Pela troca de afeto mãe-bebê o desenvolvimento vai se processando. A maturação neurológica que se da no sentido céfalo-caudal, permite a progressão de competências musculares que se iniciam com a sustentação da cabeça até atingir a marcha e seu controle, incluindo a aquisição da preensão em pinça fina pela oposição do polegar ao indicador, a garantia da escrita alguns anos mais tarde. O nascimento da inteligência ocorre quando surge o movimento com intencionalidade, transformando movimentos de espasmos reflexos em movimento com um objetivo de obter alguma sensação auditiva, visual ou tátil.
     Spitz elencou 3 momentos como Organizadores do desenvolvimento afetivo: o sorriso, a angústia, a contestação do “não”. Sorrir, chorar, e enfrentar. Spitz define o aparecimento do sorriso, por volta dos 2/3 meses, como a primeira resposta social da criança. O rosto da mãe é reconhecido em figura triangular formada pelos olhos e boca, uma captação da forma, como entende a Escola de Psicologia da Gestalt. Estimulado pelo sorriso da mãe, o bebê espelha este sorriso. O jogo de satisfação recíproca que se estabelece na dupla mãe-bebê, transborda para outras pessoas próximas, e torna-se uma resposta social. A primeira.
     Mas o bebê muda sua percepção do mundo entorno quando adquire a competência motora do sentar. Seu olhar passa a captar um mundo de gigantes. Ele tem uma possibilidade de ter um parâmetro mais confiável, o chão como ponto zero, e adquire também a capacidade de girar sobre seu próprio eixo, seu corpo, o que lhe permite dimensionar o espaço muito maior. Isto se torna assustador para ele. E, no reconhecimento já bem mais estruturado do rosto da mãe, ele passa a sentir medo do “estranho”, medo de todos os rostos que não são a mãe. Entenda-se aqui que há a possibilidade de substituição materna, ele aceita. Mas a primazia da segurança que a mãe lhe oferece, é única. E este medo faz com que ele tenha aquele conhecido comportamento do estranhamento aos adultos não-mãe.  A necessidade de incluí-la no seu entorno imediato produz uma dependência de sua presença. Assim, ao se dar conta que a mãe não está perceptível no ambiente em que ele está, o bebê sente medo de tê-la perdido. A existência só acontece enquanto sua visão atesta concretamente. Este é o organizador que Spitz denominou como a angústia do 8º mês. Seu choro é de angústia ao perceber que a mãe não consta no ambiente, e, como não possui ainda os recursos cognitivos para metrizar o tempo e o espaço, ele sofre como se vivesse um abandono.
     Em torno dos 18 meses, Spitz descreve o terceiro organizador: o “não”. O bebê já se põe de pé, e seu desenvolvimento cognitivo estimula, sobremaneira, a sua curiosidade. Quer mexer em tudo ao seu alcance. Corre perigos, e está sempre escutando um sonoro “não”. Trava-se aí um processo de identificação com o adulto, aquele que fica a lhe cercear, por proteção dele. Ele passa a repetir este não para todas as propostas que lhe são ofertadas. E mesmo ao realizar uma ação já repreendida, ele a executa dizendo não e olhando para o adulto, como se contestasse e se tornasse “grande” neste momento que espelha a atitude de limite do adulto. Esta primeira contestação, ou oposição vai se seguir da resistência maior ou menor à educação esfincteriana, o tirar as fraldas, que vem a ser proposta, alguns meses depois. O comportamento de oposição é saudável desde que não o aprisione nas primeiras oportunidades da busca pelo Poder. Aceitar ou negar a regra social de fazer xixi e cocô em lugar específico, o banheiro, é uma possibilidade de experimentar o Poder.
*continuamos na próxima semana.