terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Feminicídios em explosão, quem autoriza? Parte I

Feminicídios em explosão, quem autoriza? Parte I Nós. Toda a sociedade autoriza e se dobra à Misoginia, o preconceito de base, o preconceito estrutural, por ação ou omissão, e, entre a ação e a omissão, existe a ação camuflada de cegueira. Aliás, já escrevemos sobre a “cegueira deliberada” nas Varas de Família, apontada há mais de 15 anos por Desembargadora que em seu Artigo “Incesto e o Mito da família feliz”, na pág. 176, “a cegueira da Justiça”’, de seu livro Incesto e Alienação parental – Realidades que a Justiça insiste em não ver, onde ela também discorre em subtítulos sobre “a lei do silêncio”, “a face oculta do incesto”, “a farsa da alienação parental”, temas muito bem abordados pela autora. Sei que vão estranhar a descoberta da posição do pensamento exposto à época, que pulou para o lado oposto do terreno. Sempre recebo observações me perguntando se não estou enganada. Esta é uma questão que guardo uma grande curiosidade, eu também. Um interessante ponto a ser estudado. Precisamos saber se esse tipo de mudança, por exemplo, induz o judiciário a seguir na “cegueira” como está afirmado no livro, onde é acrescentado que “a Justiça acaba sendo conivente com o infrator, culpabilizando a vítima”, Pág. 176. Afirma ainda a autora que a justiça, não aceitando a voz da criança em fragmentos “coerentes com as situações e os comportamentos envolvidos, legitima o incesto. A impunidade reforça a invisibilidade do incesto, chegando a legalizá-lo.” Estamos falando de violência sexual de criança porque ela faz parte do tipo de Feminicídio Continuado. Manter, ininterruptamente, uma mulher sob forte pressão, usando uma lei que foi inventada para defender genitores acusados de pedofilia, sem respaldo científico nenhum, é uma forma torturante de Feminicídio lento e invisibilizado. Essa era uma das torturas experimentadas nos laboratórios humanos, desenvolvidos pelos nazistas, para medir a capacidade da mãe aguentar a privação de seu filho que lhe era retirado, similar à inversão de guarda por “busca e apreensão”, atual e legalizada, em episódio traumático, porquanto a criança sai “presa” no colo de um policial armado. Não há nenhuma dúvida que esta prática judicial é traumática para a criança. Repercutindo, evidentemente, na mãe, que, por vezes, recebem respingos da truculência que age contra seu desespero ao ver a criança, muitas vezes, muito pequena, em lactação, mas nada é suficiente para deter o ódio que alimenta esse procedimento. Não se sabe nada sobre essas crianças. A omissão do Estado, outro subtítulo também do citado livro, não acompanha a criança nesse período de pós trauma severo. Afinal, todos sabemos das sequelas da Privação Materna que causa severos quadros psicopatológicos, amplamente estudados pela Psicologia. Não há nenhum Protocolo a ser seguido, nenhum acompanhamento psicossocial, nenhuma avaliação psiquiátrica da criança. Não se tem notícia nenhuma de seu comportamento, de comorbidades, de seu desempenho escolar, de seu desenvolvimento. Nada. É como se fosse consagrado: está com o pai, então pronto. Não se conhece os efeitos da falta total da mãe, imposta judicialmente, e nem da convivência com o genitor, na maioria dos casos suspeito de estupro de vulnerável. A justificação é sempre que os comportamentos lascivos não restauram provados. Claro. Esse é um crime quase perfeito. Os estupradores não deixam rastro, são meticulosos. Mas crime não provado não é afirmação de inocência. Pode ser metodologia com fragilidade ou pode ser devido à grande competência do autor. Assim também, todo esse sofrimento da mãe, este podemos ver porque temos acesso, diferente da criança que passa a se sentir, completamente, desamparada, vai operando um Feminicídio Continuado. E quando a mãe morre, no atestado de óbito está escrito AVC, ou infarte, ou uma neoplasia fulminante, por exemplo, mascarando a real causa. A despeito da tortura dos nazistas, nem todos os organismos aguentam por 10, 15, 20 anos viver sob o medo, o insulto, e o terror, contínuos. No próximo artigo, abordaremos um outro tipo de Feminicídio, igualmente devastador. A Maternidade concentra um ímã de ódio que aumenta as estatísticas. Com tiros, faca, fogo, socos e pontapés, jogar pela janela do 10º andar, com machadinha, pela ferragem do carro arrastando o atropelamento, as formas estão cada vez mais cruéis. Não basta desfigurar o rosto, é preciso desfigurar o corpo todo. A consagrada impunidade desidrata as leis vigentes. Lei tem, mas... Um homem espanca e mata sua namorada, a coloca no carro e vai até a delegacia. Apresenta-se ao delegado que ouve sua confissão e o libera. Mas ao chegar no seu carro, lembra do corpo da moça. Sem hesitar, retira-o e deixa-o na calçada da delegacia. E, sem ser incomodado, vai para casa. Não é roteiro de filme de terror. É terror na vida real.

Alienação Parental, mentiras e o lobby eficiente. Parte I

Alienação Parental, mentiras e o lobby eficiente. Parte I Há algumas semanas, me deparei com mais um artigo, sobre alienação parental, pleno de erros, desinformações, de Sofismas que se assemelhavam ao clássico exemplo do be-a-bá das primeiras noções do estudo da Filosofia: “ursos são animais, ursa maior é uma constelação de estrelas, logo, ursos são estrelas”. Era um Editorial de um Jornal de grande circulação. O artigo que traz o posicionamento de um veículo de comunicação no país. E me perguntei, mais uma vez: por que a mentira, as mentiras são tão facilmente espalhadas? A desinformação que nega todas as numerosas informações científicas e clínicas, robustas, com comprovação, e de acesso explícito, podem ser chamadas de mentiras estratégicas. A pergunta seguinte se refere ao serviço prestado pelas mentiras em pauta. A quem servem? A mentira, por exemplo, de que se for revogada a lei 12.318/2010, as crianças ficarão sem proteção, parece estar pendurada num fio de teia de aranha. Essa lei protege, como explicitou o inventor do termo alienação parental, que nunca foi reconhecido pelas Associações Científicas, nem pela OMS, o agressor. Foi esse o objetivo do médico generalista, e também pedófilo, Gardner, quando inventou esse termo, e instruiu os genitores acusador de abusos sexuais. Isto é comprovado na leitura de seu livro “True and falses accusations of child Sex abuses”. Ele escreveu: “as atividades sexuais entre adultos e crianças fazem parte do repertório natural da sexualidade humana, são benéficas para a criança pois a tornam sexualizada e a fazem ansiar pelas experiências sexuais da procriação, garantindo a preservação da espécie”. Ele escreve que não é o abuso sexual praticado pelo pai que traumatiza a criança, é a resposta draconiana da sociedade, é a não aceitação dessas praticas que causa trauma. E aqui ele culpa a mãe, porque ela não “cumpriu” devidamente suas obrigações conjugais com o marido e porque ela reagiu de “maneira histérica” à violação da criança pelo genitor. Como afirma, citado acima, o estupro incestuoso é natural no repertório da sexualidade humana. Este livro, como os outros, são recheados de proclamação de aberrações, todas na direção da naturalização do incesto. Ele aconselha os terapeutas de mães de crianças abusadas a estimularem a masturbação nelas mesmas, com o uso de vibradores, para que se tornem mais sexualizadas e possam atrair de volta o marido que passou a usar a filha ou filho. É categórico em afirmar que o abusador não deve ser afastado de casa, que ele precisa ser bem acolhido, porque esse comportamento é normal. E ainda sugere que as crianças abusadas por seus pais devem assistir a filmes, o termo da época era vídeo cassete, de outras crianças sendo abusadas ou registro delas mesmas para que se acostumem e entendam que é normal o que os genitores fazem com suas crianças. Criança e psicólogo sentados assistindo videocassetes de barbaridades, para esse senhor, seria terapêutico. Gardner era próximo de Kinsey, que inventou a Escala da sexualidade da criança, que permitia medir a curva de orgasmos diários que uma criança pode ter. O laboratório humano composto por órfãos da guerra lhe fornecia a possibilidade de contar o que chamou de orgasmo na infância. Evidentemente, está lá na escala, que os 7 orgasmos diários de um bebê de 8 meses, por exemplo, eram resultado de manipulação de seus órgãos genitais, obtidos por um adulto, um técnico de laboratório, como devia ser identificado. E todos os dias aquelas crianças, de meses, de 2 anos, 3, 4, 6, 7 anos, (acho que a amostra era de zero a 7 anos), eram aferidos em seus “orgasmos”. Kinsey parece ter fornecido a convicção do gozo sexual na infância para Gardner, que defende a naturalização do abuso sexual intrafamiliar. Será que o veículo que defendeu a permanência da lei de alienação parental buscou o acesso a essas informações registradas em livros. Não é opinião, não é disputa de guarda, alcunha também errada, é uma lei emboscada que protege o adulto agressor. Gardner emitiu mais de 400 laudos inocentando pais abusadores com o que ele instruiu: pai acusado de abuso sexual tem que girar o holofote para a mãe. E assim, vai se safar da acusação. O mais cruel e enlouquecido é que vai sendo efetivada a legalização do estupro de vulnerável, termo técnico jurídico para todo e qualquer ato de lascívia. O abuso incestuoso é evaporado pela fraudulenta reativa de um pobre pai que está sendo alienado, impedido de conviver com o filho ou filha. Então, com nos ursos que viram estrelas, a justiça se encarrega de alienar a mãe que ganha uma tarja de louca, ressentida, rancorosa, a alienadora é alienada, legalmente. Interessante, não? Afastar o pai porque ele está abusando do filho ou filha, não pode. Vai ser impossível a criança se desenvolver sem aquele pai. Mas fazer desaparecer a mãe para a criança, isso pode, e não faz nem um malzinho. A justiça entrega a criança abusada a seu abusador. Afinal a mãe é alienadora, coisa que nem existe cientificamente. Isso não tem nenhum problema? Se o crime de estupro de vulnerável é um crime quase perfeito, não deixa rastros, com a ajudinha da “lei”, a falsa acusação de prática de alienação prescinde de provas, basta a voz grossa afirmar. Mulheres são todas loucas. E diante de uma lei testosterona, nunca mais ela deixa de ser considerada alienadora. Nunca. A criança vai ser massacrada até deixar de relatar os abusos. São infinitos “estudos”, praticando a revitimização continuada. À exaustão. O ECA, que garante a Proteção Integral da Criança é desprezado. Uma lei que é inspiração para inúmeros países, considerada primorosa, não vale nada quando entra a supremacia da lei de alienação parental para acobertar crimes contra o corpo e a mente da criança. Assim, o ECA, assim como a Lei Maria da Penha, outro exemplar de qualidade invejável, leis brilhantes que vêm sendo desidratadas. Ambas, leis de Proteção de Vulneráveis. Ambas, leis que abraçam a Maternidade. Coincidência?

Feminicídio em explosão, quem autoriza? Parte II

Feminicídio em explosão, quem autoriza? Parte II Os números contabilizados de Feminicídios de 2024 confirmaram mais um recorde. Seria uma medalha de ouro? Deveríamos nos orgulhar de mais um recorde batido? Foram 1470 em 365 dias, o que faz acontecer 4 a cada 24 horas. Ou seja, durante uma jornada de trabalho do brasileiro comum, que nunca é do oficial 8 horas somente, nem no regime 6x1, na verdade, 7x7, 2 homens matam 2 mulheres. Enquanto você trabalha ou dorme, homens matam mulheres. Não são todos. Existem os que se omitem e, portanto, dão palco para os assassinos. Mas, também existem os que, proativamente, têm lutado contra esse extermínio disfarçado. Não são todos os homens que matam as mulheres, mas são sempre homens que matam. Mas, não temos o número de homens assassinos presos, condenados ou aguardando presos o julgamento. Temos notícia de muitos que fogem do flagrante e estão há anos foragidos. Sem serem incomodados. Onde estão os 1470 assassinos dessas mulheres? Aliás, aproveito para sugerir que a Justiça, diante do desastre humanitário da matança de mulheres, possa ter um caminho de julgamento que seja tão célere quanto os golpes e balas que eles despenderam para assassinar a mulher que ele “amou” e depois “odiou para matar”. Não me refiro a nada sumário, mas poderia ser criada uma Vara que se especializasse nesse tipo de crime. Há evidências, há provas, há confissão na grande maioria, então, por que não simplificar cumprindo todo o rito da ampla defesa? Enxugar os benefícios também seria uma sugestão. Tem um “Marlon” que foi julgado por estuprar uma criança de 13 anos, mas só pegou a pena mínima, 8 anos, e logo foi beneficiado com a “saidinha” de Natal, quando ele estuprou sua própria mãe, e voltou a julgamento mas teve prisão domiciliar, quando matou a enteada. Fez jus à licença de cometer crimes contra mulheres que lhe foi dada. Alguém tem alguma dúvida sobre se está sendo exercida a função da Justiça, do cumprimento da Lei e de sua inerente penalização como regra fundamental de convivência social e hábito de cidadania? Dúvida? Esse não é um exemplo de exceção. É só ter vontade de conhecer, e se informar direito. Ler, e juntar b com a. Estamos falando apenas dos casos letais. Se fossem incluídas as tentativas de Feminicídio, esses números ganhariam um acréscimo em progressão geométrica. Enquanto contamos 1 homem que assassina uma mulher com crueldade a cada quase 4 horas, encontrei vários grupos, preocupadíssimos, com o assassinato de 1 mulher a cada 3 dias. Está acontecendo na França. A mesma França da Revolução de 1789 que esculpiu na Nação os 3 Princípios: Liberté, Égalité, Fraternité. Os estudiosos se perguntam: como? As Mulheres têm todos os direitos na França. E como 1 homem mata 1 mulher a cada 3 dias? A Igualdade foi detonada quando o Direito à Vida lhe é abolido. A Liberdade está ferida. A Fraternidade também foi atingida, posto que uns matam e outros silenciam, consentindo. Nada Fraterno. Nessa minha participação nesses grupos, estudei na França, encontrei além do tema do Feminicídio, o tema do estupro de mulheres, o dos abusos sexuais intrafamiliares contra a criança, o incesto, o da violência física e psicológica contra a criança, e o da violência doméstica contra a mulher. Os grupos são formados por jornalistas especializados, advogados, promotores, psicólogos, e vítimas que descrevem de frente o que sofreram. Adultos que relatam com clareza suas dores e sequelas que carregam desde a infância, 3 anos, 5 anos, até o fim da adolescência, e descrevem uma Justiça desfuncional, de onde se apreende o mesmíssimo modus operandi dos criminosos. As histórias seguem roteiros que não consideram, aparentemente, a geopolítica. Iguais. O que me impressionou foi encontrar o mesmo relato das vítimas desses crimes onde supomos que exista Respeito às Leis, onde os Direitos são, Iguais. Na letra, ao que parece. E aquilo que pensávamos ser um fenômeno dos confins do nordeste, alvo de muito preconceito, acontece em lugar e sociedade com outro desenvolvimento econômico e educacional, bem distinto, dando a impressão que esses avanços civilizatórios não interferem na extinção dessas barbáries. A quantidade é, notavelmente, menor, sim. Mas os homens continuam matando e sendo violentos com mulheres e crianças, mesmo que as condições de vida sejam melhores. É esse o ponto que me intriga.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Ainda Feliz Ano Novo!

Ainda: Feliz Ano Novo! Tempo alegre, tempo de bons propósitos e bons votos. Sorrisos abundantes! Paz, saúde, felicidade, amor, dinheiro. Talvez esses tenham sido os maiores desejos que compuseram os votos de Ano Novo. A alegria era verdadeira. A esperança em dias melhores era a todo momento referida. Os repórteres fazendo o trabalho, contentes, não se davam conta da monótona repetição dos bons votos. Mas algo começou a me soar estranho, e não eram as felicitações. Estava me sentindo sendo arranhada. Comecei a prestar mais atenção nas falas. Eram legítimas naquele clima de alegria. Onde estava a varinha de condão que transformou tão radicalmente o clima. Não me refiro ao clima geológico, falo do clima social e afetivo. Até um dia atrás nossas mentes eram invadidas por fatos cruéis expostos nas mídias. Estávamos, por um longo tempo, imersos num mar de violências com resultado Feminicídio. Uma enxurrada que não veio de um forte temporal, mas das mãos de homens armadas de facas, de revólveres, de carro em velocidade, de álcool e fósforo, em atrocidades inimagináveis, na presença das crianças da casa. As mesmas crianças que estavam na expectativa da visita do Papai Noel, prestes a chegar, depois de um ano de espera. Mas a magia desse tempo, que habita o imaginário e os registros mnêmicos de todos, não foram capazes de conter as mãos da barbárie. Comecei a me indagar: por que será que ninguém desejou respeito, desejou muita tolerância, desejou muita empatia, desejou muita solidariedade? Em momento que desejos utópicos são benvindos, por que ninguém desejou que acabe a violência contra as mulheres, ninguém desejou o fim dos feminicídios? Ninguém. Nem mulheres que são o próximo alvo, por excelência, e pior, nem homens. Sim homens. Eles compõem o elemento predador, em proatividade. Todos? Não. Os que assassinam mulheres e os que se mantém em silêncio. Não matam, mas não combatem, proativamente, sonoramente, ruidosamente, explicitamente. Não basta ser contra baixinho, só quando perguntado. Faz-se necessário se engajar, entrar no combate, que não quer dizer pegar um megafone e sair pela rua gritando, mas é, principalmente não ficar em silêncio depois de uma “piadinha” sobre mulheres. A omissão nos coloca ao lado do agressor, não existe “posição neutra”. Os opressores são alimentados pelo silêncio de quem testemunha um ato de violência, de qualquer tipo. É preciso que todos saiamos em campo, em família, nos trabalhos, nas reuniões sociais, no sistema educacional, para detectar a capilaridade das raízes da misoginia, que nasce de um microponto multissecular que estabeleceu uma desigualdade de qualidade, atribuída à mulher. Para demolir a misoginia, que é estrutural, e ancestral, necessitamos de um duro trabalho contínuo, executado com afinco e persistência. Não basta não se intitular misógino ou misógina, fenômeno, aparentemente, incongruente que urge ser estudado a fundo. Mulher que odeia mulher, e ataca. A mulher é alvo de ódio pela capacidade exclusiva da maternidade, lhe sendo atribuída a definição de ser a criatura que se comunicou em diálogo com o diabo. Não precisa ser religioso, há sempre outro caminho para lhe atribuir a maldade, uma alta periculosidade. É ela que tem uma caverna que não se pode ver, que já até fabularam como sendo dentada, a expressão de violência que lhe é atribuída. É ela que, em dois pedaços de seu corpo, produz o leite que mantem a vida para toda a sua descendência. É ela que, pela intimidade com a Natureza, era capaz de ter o conhecimento das ervas que curavam, ganhando, assim, o título de bruxas. Obrigadas à condenação à morte, queimadas vivas em fogueira, em local público, deixando o rastro do terror em todas as mulheres. Hoje, há mais sofisticação para essa condenação institucional à morte. O segredo de justiça se encarrega de “um faz de conta” de proteção que, na verdade só beneficia o agressor, sob os auspícios da lei. Até as crianças tomam conhecimento do cancelamento da mãe do amiguinho, sob o patrocínio dessa lei. O entorno daquela mulher que buscou a Justiça para proteger seu filho de um predador, assiste em silêncio o esmagamento da Maternidade dela. O Poder de gestar e amamentar, Poder da Maternidade, foi desidratado até se tornar um pó, visto como venenoso, pintando o Poder do Gênero com as cores da maldade, as tintas da perversidade. E, mantendo a Ordem Global da Submissão, a total obediência. Matar é, apenas, um ponto nesse extermínio da Maternidade. Esse, me parece, ser um projeto político. Aliás, essa enxurrada de Feminicídios parece a reinstalação de outro tempo de caça às bruxas. Leis misóginas, como a LAP, igualmente, cumprem essa função de caçá-las silenciá-las, aniquilá-las. Queimá-las em vida. E, vale ressaltar, que essa lei e os procedimentos perversos dela decorrentes, são operados por mulheres também que seguem preconceitos, e se alojam no mecanismo de defesa da Identificação com o Agressor, o predador. A prática da desconexão com o outro, a outra, nessa pauta, alicerça a misoginia em suas várias camadas. É possível observar, com um pouquinho só de atenção, que o Feminicídio Social é um processo que é mantido pelo silêncio conivente, além da postura proativa, hoje escancarada nas redes sociais. É a omissão diante dos atos e dos discursos de ódio, que dá autorização à barbárie. Desejo a todos que em 2026 possamos trocar mais Respeito, ter mais Tolerância, juntar mais Solidariedade, construir Empatia, e perder o medo em Desagradar agressores. Desejo, sobretudo, que sejamos Honestos.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Feliz Natal

Feliz Natal! O dia, a véspera comemorativa, já passaram no calendário. Mas continuamos em tempo de Natal. Deveríamos ter mais dias de Natal no ano, para que desejássemos mais vezes coisas boas para os outros. Nesse tempo, o cumprimento se torna gentil, carinhoso, com bons desejos. Deveria ser mais vezes. Escrevi e publiquei em meu blog esse texto de Memórias, que me são muito queridas, em dezembro de 2014. Era a década de 50. Em meio à selvageria, podemos também resgatar nossos tesouros. Então: Feliz Natal. Já fui criança. Guardo nítidas as memórias desta data. À noite, minha mãe enfeitava os quatro filhos com roupas novas, as cartinhas já tinham sido devidamente entregues ao Papai Noel da grande loja de brinquedos “Viana Leal”, e saíamos para ver as árvores de Natal dentro do Rio Capiberibe e Beberibe. No portão da casa, minha mãe sempre parava e dizia para o meu pai ir dar uma olhada para verificar se tinha fechado todas as portas e janelas. Ficava intrigada. Se o papai Noel vinha e estava tudo fechado, não tinha chaminé, como deixava os nossos presentes. Mas não ousava perguntar, hoje eu sei, porque queria continuar a acreditar na fantasia. Meu pai voltava lá de dentro da casa, e dizia à minha mãe que estava tudo fechado. E íamos pegar o ônibus. Chegávamos à festa! A alegria no ar, o centro da cidade estava brilhante, luminoso, as pessoas sorriam umas para as outras. Os rios espalhavam replicando aquelas luzes. As pontes estavam enfeitadas. As árvores, que lindas! Eram muitas, muitas! Não conseguia contar quantas. Boiavam, magicamente, nos rios. As luzes das simples lâmpadas daqueles cones grandes equilibrados nas águas dos rios calmos, se multiplicavam e se multiplicavam no reflexo. As pontes exibiam seus colares de pérolas, que também passeavam pelas águas. Havia uma música de Natal que se escutava de vez em quando, com um som misturado a ruídos e chiados. Mas, não tinha problema, era lindo assim mesmo. Muitas famílias estavam por ali, gentis e sorridentes desejavam Feliz Natal! Sempre me ocorria a pergunta, que só pensava, como a eletricidade não dava choque ali, nem para o moço que havia colocado. Já tinha aprendido que não pode pegar em fios quando o chão está molhado. Ali tinha muita água. Depois de tanto êxtase, voltávamos e encontrávamos a satisfação dos nossos desejos realizados. Os presentes do Papai Noel. Ele tinha atendido a cada pedido de nós quatro. Era mágico! Que coisa boa! Sentávamos à mesa, uma pequena oração de agradecimento, e minha mãe servia a ceia. Coisas especiais, pouca coisa, era tarde, uma delícia! Terminada esta refeição especial, com o coração satisfeito de alimento, sentávamos à sala, meu pai numa poltrona, minha irmã grande ao piano, minha mãe arranhava o violino e nós três menores, sentadinhos pelo chão, entoávamos as canções de Natal. Era muito lindo! Feliz Natal para todas as crianças. Aquelas que têm uma família que cumpre sua função, mãe sendo mãe, pai sendo pai. Feliz Natal para as outras crianças. As que hoje estão servindo de objeto sexual de um adulto perverso que rasgou seu título de parentesco. Desejo de todo o coração que estas outras crianças, as pequenas e as que já cresceram, que tenham esperança na modificação do seu sofrimento, que acreditem que podem um dia minorar e melhor administrar sua dor onipresente. Ana Maria Brayner Iencarelli. 24 de dezembro de 2014.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Feminicídios em explosão, quem autoriza? Parte I

Feminicídios em explosão, quem autoriza? Parte I Nós. Toda a sociedade autoriza e se dobra à Misoginia, o preconceito de base, o preconceito estrutural, por ação ou omissão, e, entre a ação e a omissão, existe a ação camuflada de cegueira. Aliás, já escrevemos sobre a “cegueira deliberada” nas Varas de Família, apontada há mais de 15 anos por Desembargadora que em seu Artigo “Incesto e o Mito da família feliz”, na pág. 176, “a cegueira da Justiça”’, de seu livro Incesto e Alienação parental – Realidades que a Justiça insiste em não ver, onde ela também discorre em subtítulos sobre “a lei do silêncio”, “a face oculta do incesto”, “a farsa da alienação parental”, temas muito bem abordados pela autora. Sei que vão estranhar a descoberta da posição do pensamento exposto à época, que pulou para o lado oposto do terreno. Sempre recebo observações me perguntando se não estou enganada. Esta é uma questão que guardo uma grande curiosidade, eu também. Um interessante ponto a ser estudado. Precisamos saber se esse tipo de mudança, por exemplo, induz o judiciário a seguir na “cegueira” como está afirmado no livro, onde é acrescentado que “a Justiça acaba sendo conivente com o infrator, culpabilizando a vítima”, Pág. 176. Afirma ainda a autora que a justiça, não aceitando a voz da criança em fragmentos “coerentes com as situações e os comportamentos envolvidos, legitima o incesto. A impunidade reforça a invisibilidade do incesto, chegando a legalizá-lo.” Estamos falando de violência sexual de criança porque ela faz parte do tipo de Feminicídio Continuado. Manter, ininterruptamente, uma mulher sob forte pressão, usando uma lei que foi inventada para defender genitores acusados de pedofilia, sem respaldo científico nenhum, é uma forma torturante de Feminicídio lento e invisibilizado. Essa era uma das torturas experimentadas nos laboratórios humanos, desenvolvidos pelos nazistas, para medir a capacidade da mãe aguentar a privação de seu filho que lhe era retirado, similar à inversão de guarda por “busca e apreensão”, atual e legalizada, em episódio traumático, porquanto a criança sai “presa” no colo de um policial armado. Não há nenhuma dúvida que esta prática judicial é traumática para a criança. Repercutindo, evidentemente, na mãe, que, por vezes, recebem respingos da truculência que age contra seu desespero ao ver a criança, muitas vezes, muito pequena, em lactação, mas nada é suficiente para deter o ódio que alimenta esse procedimento. Não se sabe nada sobre essas crianças. A omissão do Estado, outro subtítulo também do citado livro, não acompanha a criança nesse período de pós trauma severo. Afinal, todos sabemos das sequelas da Privação Materna que causa severos quadros psicopatológicos, amplamente estudados pela Psicologia. Não há nenhum Protocolo a ser seguido, nenhum acompanhamento psicossocial, nenhuma avaliação psiquiátrica da criança. Não se tem notícia nenhuma de seu comportamento, de comorbidades, de seu desempenho escolar, de seu desenvolvimento. Nada. É como se fosse consagrado: está com o pai, então pronto. Não se conhece os efeitos da falta total da mãe, imposta judicialmente, e nem da convivência com o genitor, na maioria dos casos suspeito de estupro de vulnerável. A justificação é sempre que os comportamentos lascivos não restauram provados. Claro. Esse é um crime quase perfeito. Os estupradores não deixam rastro, são meticulosos. Mas crime não provado não é afirmação de inocência. Pode ser metodologia com fragilidade ou pode ser devido à grande competência do autor. Assim também, todo esse sofrimento da mãe, este podemos ver porque temos acesso, diferente da criança que passa a se sentir, completamente, desamparada, vai operando um Feminicídio Continuado. E quando a mãe morre, no atestado de óbito está escrito AVC, ou infarte, ou uma neoplasia fulminante, por exemplo, mascarando a real causa. A despeito da tortura dos nazistas, nem todos os organismos aguentam por 10, 15, 20 anos viver sob o medo, o insulto, e o terror, contínuos. No próximo artigo, abordaremos um outro tipo de Feminicídio, igualmente devastador. A Maternidade concentra um ímã de ódio que aumenta as estatísticas. Com tiros, faca, fogo, socos e pontapés, jogar pela janela do 10º andar, com machadinha, pela ferragem do carro arrastando o atropelamento, as formas estão cada vez mais cruéis. Não basta desfigurar o rosto, é preciso desfigurar o corpo todo. A consagrada impunidade desidrata as leis vigentes. Lei tem, mas... Um homem espanca e mata sua namorada, a coloca no carro e vai até a delegacia. Apresenta-se ao delegado que ouve sua confissão e o libera. Mas ao chegar no seu carro, lembra do corpo da moça. Sem hesitar, retira-o e deixa-o na calçada da delegacia. E, sem ser incomodado, vai para casa. Não é roteiro de filme de terror. É terror na vida real.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Feminicídio Continuado, Neoplasia, AVC e Infarte. Parte IV

Feminicídio Continuado, Neoplasia, AVC e Infarte. Parte IV As Vozes das mulheres e de muitos homens ecoaram de todos os cantos de nosso país. A barbárie já se instalou. E o jogo de apostas, tempos de bets, pela maior crueldade está em ascensão. Não é exclusividade nossa. Os franceses, por exemplo, estão preocupados com um aumento, para eles alarmante, do número de Feminicídios: 1 mulher é morta a cada 3 dias. Entre nós, em 3 dias são 12 mulheres. Lembrando que há, por aqui, uma subnotificação notável. As balas, facadas, fogo, espancamentos brutais, em todo o seu primitivismo, não contemplam toda a população de mulheres que são eliminadas, diuturnamente. Além desses, também os Feminicídios Continuados, aqueles que matam, lentamente, por dentro, promovendo adoecimento ou agravando uma doença preexistente, não fecham essa estúpida conta da eliminação sumária de brasileiras. Gostaria de introduzir para reflexão mais dois tipos de Feminicídio. O primeiro, é um Feminicídio que poderia ser denominado um Maternicídio, termo cunhado por parceira valente que precisou se ausentar. Antes disso, no entanto, ela registrou a marca. Um exemplo emblemático aconteceu com uma Delegada de Polícia que recebeu uma ligação de seu ex-marido, pai de seus dois filhos, em sua delegacia, comunicando que estava na casa dela e que ia matar os dois filhos. Segundo ela, em 3 minutos ela entrava em casa para constatar o duplo homicídio, seguido de suicídio. Um menino de 12 anos, com dois tiros na cabeça, durante o telefonema, uma menina de 9 anos, coma arma abafada por um edredon, também na cabeça, e um tiro no seu próprio céu da boca, morrendo uns minutos depois. Este é um Feminicídio que extermina a Maternidade. Talvez, pudéssemos chamar de Feminicídio Vicário: matar a mãe através do extermínio dos filhos. Um assassinato que resta vida e por procuração, causando uma tortura permanente, uma morte à maternidade, dentro do corpo que vai seguir mutilado. Vale ressaltar a profissão da mãe. Delegada de Polícia. Esse ponto nos exemplifica quão difícil é a prevenção. Enquanto delegada, ela estava treinada, por profissão, a detectar comportamentos violentos, com risco de resultado letal, acostumada com criminosos e suas mentiras e dissimulações, e não conseguiu proteger seus filhos. Não posso afirmar, mas, certamente, frustrou agressões, e armações. Talvez, não tenha conseguido convencer as instâncias judiciais do perigo que os filhos corriam no cumprimento das determinações ditatoriais de que tem que haver convivência com o pai, desprezando a alta periculosidade do assassino. Este é um ponto que merece muito estudo e deveria ser flexível, porquanto a violência cresce de maneira imprevista. Afirmações de que “foi um mal marido, mas é um bom pai” são ingênuas, estúpidas, e irresponsáveis, o que não se coaduna com a função de um julgador ou julgadora, que deve garantir a Proteção Integral da Criança. Um pai que é violento, em qualquer das formas dessa prática, com a mãe de seus filhos, rasgou sua atribuição de Função Paterna. Nesse ponto, partindo do mesmo caso tão ilustrativo, trazemos o avizinhamento da família em pauta com o Estado. Enquanto Delegada, exercendo uma função pública de garantia da Segurança Pública, essa Mulher, Mãe/Delegada, não conseguiu evitar essa tragédia. Não creio, nem de longe, que ela tenha deixado de tomar todas as providências cabíveis. Mas, seriam essas “todas as providências”, o suficiente para garantir a Proteção Integral de Vulneráveis? E a Impunidade? E o entendimento judicial de que um elemento que cometeu crime de violência contra mulher ou criança, pode responder em liberdade porque não oferece perigo? Para quem? Para a juíza ou delegado, pode ser. Mas ser solto depois de indiciado por crimes sexuais com crueldade, contra 25 alunas, é, no mínimo, desrespeitoso com o estado emocional das vítimas desse serial estuprador. Ou o outro que matou a namorada, colocou o corpo dela no carro, foi a Delegacia, e ganhou o benefício de responder em liberdade. Um detalhe reforça a comunicação de total impunidade ficou por conta do corpo, que, então, retirou de seu carro e o depositou na calçada da delegacia. Um corpo por espancamento sob os auspícios da instituição policial, garantida a liberdade do assassino confesso. Qual é o recado explícito que é passado nesses dois casos? Não é uma exceção rara. Quando o Estado não protege uma mulher que tem uma MPU, Medida Protetiva de Urgência, e que é assassinada pelo seu perseguidor violento, o Estado deveria ser Responsabilizado. Porque ele é que está precarizado em suas atribuições. O descumprimento de MPU deveria ser, rigorosamente, punido. Escuta-se no balcão de delegacias que é um exagero pedir uma distância de 300 metros para a aproximação de um agressor. Assim como muitas vezes uma MPU concedida por Vara Criminal é caçada pelo Vara de Família que é adepta à convivência de agressor e vítima, sob qualquer condição. Até de risco letal. E assim acontecem os Feminicídios. A Juíza Viviane foi assassinada pelo ex-marido, na frente das 3 filhas pequenas, com 16 facadas, na véspera de Natal. O Estado estupra quando não cuida de seus meninos, meninas e mulheres. O Estado mata quando não implementa, de verdade, Políticas Públicas efetivas de Proteção de Mulheres. Este segundo tipo de Feminicídio que trazemos à reflexão hoje, exibe as vísceras de um Estado povoado de coniventes com a violência contra mulheres, sob o regime da Misoginia.