terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Feminicídio, Infanticídio, o Indígena, e o "Orelha", quem são os homens que matam vulneráveis.
Feminicídio, Infanticídio, o Indígena, e o “Orelha”, quem são os Homens que matam vulneráveis.
Parte I
Galdino Pataxó. Era 1997. O Indígena queimado vivo num banco de parque em Brasília. A pouca distância do Centro da Capital Brasileira, das Instituições do Governo Federal. Galdino dormia no banco. Cinco adolescentes jogaram gasolina sobre ele e riscaram o fósforo. Chegou ao hospital com grande dificuldade respiratória e extensas e profundas queimaduras pelo corpo. Não aguentou, veio a óbito. Ainda lembramos?
O assassinato de Galdino Pataxó foi operado por um grupo de 5 adolescentes, filhos de pessoas “influentes” em Brasília. Não pode ser considerado um impulso incontrolável. Afinal, foi necessário ir até um posto de gasolina e arrumar um recipiente cheio do combustível. O banco onde Galdino estava dormindo não ficava na calçada do Posto. Ou seja, houve um tempo entre a ideia e a sua execução, tempo este que permitiria o recuo de ideia tão macabra. Mas, foram se muniram dos itens necessários, e voltaram para realizar o assassinato cruel.
Acompanhamos o caso de Ângela Diniz em 1976, em Arraial do Cabo, RJ, quando o advogado famoso do assassino, lançou o argumento da legítima defesa da honra, pintando Ângela como louca e depravada, uma prostituta de luxo, afirmando inclusive que ela queria e pedia para morrer e que o assassino, seu marido, só teria atendido ao pedido dela. Um homem amoroso, dedicado, que atendeu ao pedido da mulher lhe dando 4 tiros, um favor, desfigurando-a, como é de praxe. Não basta só matar, tem que exterminar a identidade, destruir a cara.
Mais recentemente tivemos uma psicóloga, dita “perita”, que afirmou que a mulher era a culpada pelo seu assassinato porque teria praticado a falácia de alienação parental, então o pobre homem “perdeu a cabeça”. Ela foi morta pelo marido, na frente do filho por ser uma “alienadora”. Não soube da entrada da pena de morte, motivo alienação, no Código Penal. No entanto, temos agora uma lei bizarra que pretende obrigar a ter afeto. Quem não amar seu filho, mesmo pagando certinho a pensão alimentícia, será punido, multado por “falta de afeto”. Será que a justiça pensa que vai controlar com presença um sentimento? E qual será o uso dessa lei pelos pais perniciosos e abusadores, claro que usarão para pleitear a convivência mesmo que os atos de lascívia estejam postos. A convivência passa a ser obrigatória.
E, será que os agentes judiciários acreditam que obrigar a conviver vai levar ao amor? Presumo que sim, porque isso já acontece pelo lado da criança. Obrigar uma criança a conviver, a ficar na casa de alguém de quem ela tem medo, pavor, por 2 dias seguidos e metade das férias, para esquecer o que relatou de sofrimento, parece-me, no mínimo, uma ingenuidade que não cabe nesse nível, para não levantar lebres mais descabidas ainda.
Por conta dessa autoimagem de autoridade que será obedecida, a justiça já entregou muitas crianças que foram a óbito em mãos de seus genitores. Joanna, Bernardo, Isabella, Henry, os irmãos Mariah e Lucas, e tantos outros. Na semana passada o Manoel, 2 anos, foi jogado contra a parede, como uma bola de basquete, e depois esfaqueado até a morte, pelo genitor.
A lista é longa, muito longa. A explosão de Feminicídios vem de par com o endurecimento da dosimetria correspondente. Passou de 30 para 40 anos de reclusão, a maior pena. E aumentou em escala geométrica o número de casos. Não só a quantidade, mas a qualidade da crueldade cresceu enormemente. Viviane, Juíza de Direito, morta com 16 facadas em frente às 3 filhas na véspera de Natal de 2021, se não estou enganada. Renata, desaparecida, enterrada e cimentada no chão da casa. Dayane, enforcamento mecânico nas mãos de seu assassino, contra quem tinha feito 12 Boletins de Ocorrência, inclusive de lesão corporal. Foi 12 vezes à delegacia. Laina, seu marido assassino a matou com mais de 15 marteladas na cabeça, em espetáculo exibido na varanda, de andar baixo, aberta da casa, assistido por plateia formada por vários vizinhos e por suas duas filhas. A mais velha ainda tentou defender a mãe, mas também foi agredida pelo assassino seu pai, e foi retirada pelos vizinhos.
Há algumas semanas, o homem que deu 60 socos na cabeça e rosto da namorada. O outro que arrastou a ex-namorada com o carro, destroçando, completamente, seu corpo. Etc., etc, etc,.
A violência vem contaminando adolescentes. Um grupo deles matou uma colega no banheiro da escola porque ela tinha negado “ficar” com um colega. Golpes. Um jovem adulto, por conta de uma “brincadeira” de cuspir chiclete num outro adolescente, entrou em luta corporal e acabou por destruir metade do crânio do menor.
E o Orelha. O cachorro que foi torturado ao ponto de ter que ser eutanasiado. A suspeita da autoria recai sobre um grupo de adolescentes. A indignação com o sofrimento do cachorro inundou o país. Movimentos se formaram, multidões foram às ruas nas grandes cidades, as falas de revolta ecoaram, algumas expressando desejo de vingança, com igual violência. Precisamos agradecer ao simpático cãozinho comunitário, foi ele que despertou um número muito significativo de pessoas de todos os lados, e de todas as cores políticas, coisa tão rara. A vulnerabilidade foi sentida, sim, sentida em sua dimensão de impotência contra um ataque de violência de um agressor que busca Poder absoluto.
Talvez nunca fique provada a autoria da tortura infringida ao Orelha. Já há sinais de mais essa impotência. Mas fomos todos acordados. Urge conseguir outras indignações contra assassinos de Orelhas-Mulheres, Orelhas-Crianças, Orelhas-Trans, Orelhas-LGBTQIAPN+, Orelhas-Bebês. Vulneráveis são o alvo de fracos, para chegar ao gozo do Poder. Precisamos retornar ao caminho da humanização, sem ingenuidade. Obrigada Orelha. Desculpa o sofrimento que nós, por ação ou omissão, lhe impusemos.
Ausência de caráter não é doença mental. Doentes mentais sofrem. Perversos, não.
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