sábado, 26 de setembro de 2020

Respeitar o brincar da Criança - Final

 

Respeitar o brincar da Criança – Final

     O brincar vai ocupando o espaço e o tempo à medida que a criança cresce. Para ela, é cada vez mais possível seguir uma sequência de comportamentos, com intervalos de tempo e lógica nesta sequência, mostrando sua aquisição da capacidade de seriação. Neste item, os álbuns de figurinhas exercem um amplo papel no desenvolvimento desta capacidade: é a numeração certa, a espera pelo incontrolável que vem no envelope de figurinhas, o ato de colar com cada vez mais exatidão no quadrado referido, a possibilidade de troca das repetidas. Tudo isto, que parece irrelevante, está patrocinando a importante o desenvolvimento da capacidade de sequenciar, o que depois estará presente no que virá a ser até um artigo científico que relate uma pesquisa.

     Na segunda infância o brincar se aprimorará em movimentos motores e competências de movimentos de pinça fina, a correta sustentação de um lápis, por exemplo, pela oposição do polegar ao indicador, com pequeno auxílio do dedo médio, permitindo a escrita mais rápida e precisa, o que dará lugar depois à sustentação do pincel para a Arte ou do bisturi para a Medicina. Nas brincadeiras de movimentos de grande porte, as instruções são mais simples, reduzidas, mas nos jogos de tabuleiro, é a concentração e a contenção que são mais treinados. Assim, as regras são mais complexas, chegando ao jogo de xadrez, o mais complexo deles. Cada peça tem uma regra própria, são 6 tipos de regras, a movimentação espelhada, a antecipação da intenção do outro jogador, toda esta coordenação em silêncio durante toda a partida sem duração prevista, o que é muito apreciado. Por outro lado, os jogos virtuais trazem simulacros de situações humanas, sendo reducionistas nas estratégias, frequentemente, matar os inimigos, bons contra maus, e a competência também é reduzida à rapidez do apertar a tecla para matar/destruir o outro. Este tipo de resposta não contribui, substancialmente, para o desenvolvimento cognitivo nem afetivo. O automatismo da repetição monótona de um movimento digital de reduzida amplitude, embebido em pensamento mágico. Várias vidas em mundo paralelo, por exemplo, sem, no entanto, espaço para a imaginação e a criação.

     O brincar com jogos proporciona a construção de códigos de comportamento, que implicam em obediência às leis, em administração de emoções e afetos. A competitividade, elemento central dos jogos, faz experimentar as emoções do ganhar e do perder. Aprender a ganhar e a perder é difícil, e vai acompanhar o indivíduo por toda a vida, em aprendizagens com situações as mais variadas.

     Independente de competição, saber ganhar e saber perder, que acontece diariamente, necessita de experiência cumulativa. A maturidade emocional possibilita que haja uma diminuição do desgaste em cada situação de ganhar e de perder. O sofrimento pela frustração ou pela arrogância pode dificultar ou obstruir o fluxo natural das trocas interpessoais.

     Difícil abrir espaço para o brincar como uma coisa séria. Aparentemente, o valor fica por conta de atividades escolares extra-curriculares. Claro que a escolaridade exerce papel fundamental na aquisição dos diversos raciocínios, no desenvolvimento cognitivo e na socialização. A ideia de que é preciso munir a criança da aprendizagem de outra língua, dos esportes competitivos, das lutas. Não nos damos conta, mas a impressão passada para a criança é a de que é preciso ganhar, ganhar e ganhar. Todos podem ser adversários. No entanto, vale ressaltar que esta atividade é muito importante para o desenvolvimento da criança, e, na vida adulta, cumpre também uma função de restituição de equilíbrio de emoções e da boa sensação de alegria. O humor é reconstituinte. O fazer humor fino, não me refiro ao deboche, com as situações da vida é a demonstração de maturidade e capacidade criativa.

     A grande complexidade de nossa mente nos brinda com uma riqueza de elementos formadores de sua formação numa composição dinâmica ininterrupta. Mesmo que os processos mentais, em toda a amplitude implicada, não sejam evidentes, eles acontecem, inexoravelmente.    

     Expansão, contenção, movimento motor, movimento afetivo, este processo, através do brincar, é fundamental para o exercício da vida adulta, o mais saudável possível. É muito comum se ter a impressão equivocada de que as brincadeiras podem ser sempre “sacrificadas” para que o tempo seja dedicado à atividade intelectual. Ou seja, se a criança está brincando, isto é visto como dispensável. Não lhe é dada a importância que é devida. É brincando que a criança ensaia e aprende a vida.

      

 

sábado, 19 de setembro de 2020

A Cultura do Estupro de Criança e a Pedofilia Intrafamiliar Acobertada – Parte II

 

A Cultura do Estupro de Criança e a Pedofilia Intrafamiliar Acobertada – Parte II

 

     Sob o intenso impacto do fato deplorável da gravidez resultante do estupro de uma menina de 10 anos, a revolta, por diferentes vértices, se exaltou. Vimos rachar a sociedade. A questão, rapidamente se mudou de lugar. Não mais era a dor daquela menina, abusada por mais de 4 anos, quando ainda tinha só 10 anos. Tornou-se briga, e briga religiosa, em nome de alguém que em nenhum momento se pronunciou. Alguém, aliás, que por vezes surpreendeu com respostas inesperadas.

     Embebidos desta revolta brotaram inúmeras idéias de campanhas. Mas não vi nenhuma que se referisse aos abusadores/estupradores. Faz-se necessário esclarecer aqui neste ponto que estupro de vulnerável é o nome do crime que abrange atos libidinosos contra criança e adolescente. Quais sejam: carícias, vouyerismo, exibicionismo, exposição a filme pornográfico, fotos e vídeos de cunho sexualizado, masturbação, sexo oral, penetração digital anal e vaginal, penetração peniana, etc., etc., etc,. Esses comportamentos têm como característica, comum a todos, a ausência de vestígio. Portanto, o Estupro de Vulnerável é também tipificado sem que o corpo da criança ou adolescente seja tocado. Ou que o seja, sem deixar marcas físicas. Nosso equívoco, em atribuir a nomenclatura de estupro apenas para os casos onde há violência, só beneficia o abusador que tem uma tolerância a mais. Outro equívoco diz respeito a obscurecer a incidência de estupro, em suas várias formas, em meninos. Eles são quase igualmente molestados que as meninas, mas são muito mais sub-notificados que elas.

     Estes números ocultos só favorecem os abusadores/estupradores. As Políticas Públicas, já muito escassas, tornam-se pífias para enfrentar o problema. Há uma campanha anual perto do carnaval sobre a pedofilia. Parece até que pedófilo só aparece no carnaval ou que gosta de carnaval. Na verdade, para o pedófilo, todo dia é dia de abusar da criança. Todo dia.

     Pensando sobre as várias intenções de campanha de prevenção da pedofilia, que circulam neste momento, uma coisa chama nossa atenção. Imagina-se que há abusos e estupros porque a criança não sabe dizer não. Este é um outro equívoco muito grave. A criança sabe dizer não ao seu abusador. Ele é que não sabe respeitar a criança, nem aceitar este não.

     Evidentemente, que ajuda dar conhecimento a uma criança sobre a restrição a suas partes íntimas. Mas isso não obstrui a sagacidade de um abusador. Com sua mistura de intimidação e sedução, ele irá fazer um novo arranjo para acessar estas suas partes íntimas. O resultado deste conhecimento pela criança será sentido na maior facilidade que ela terá em relatar para um adulto de sua confiança. O fato dela saber que os adultos têm este conhecimento, que estão a falar para ela, faz com que o pacto do segredo, estabelecido pelo abusador, sofra uma redução em seu resultado.

     Por outro lado, não posso deixar de remarcar que esta é uma atitude que sobrecarrega a criança. Uma vez que ela é instruída a “dizer não”, ela será cobrada sobre não ter dito não ou não ter parado o abusador com seu não. Sabemos que investir no auto-conhecimento, na auto-decisão de uma criança, lhe é benéfico. Mas imaginar que só pelas campanhas irá dirá não e teremos menos um problema, é muito ilusório. Há muito, todas as crianças, as que já adquiriram a linguagem, dizem não para seus abusadores.

     Fica sempre à mostra que queremos uma solução mágica para um problema que é sustentado estruturalmente. E mais, que temos uma tendência disfarçada e silenciosa de desresponsabilizar o pedófilo, hoje quase uma vítima, como dizia o Gardner. Ele, que goza de proteção da lei de alienação parental, seu grande e seguro esconderijo, está sempre saindo do foco da sociedade nos atos criminosos que pratica. Preferimos pensar que o abusador/estuprador é alguém que tem um olho só, é um monstro, é um estranho que vem seduzir a criança que está negligenciada pelos pais. Preferimos esquecer que, aproximadamente, 90% dos casos acontecem dentro de casa, que 85% dos casos são perpetrados pelos pais, padrastos que criam, avôs, tios, irmãos, (99% são homens), que os abusos são cotidianos, negando que ele está entre nós, é alguém acima de qualquer suspeita. Como escrevem nas sentenças juízes que os absolvem: “o pai é uma pessoa ilibada”.

     Precisamos ter mais cuidado, mais responsabilidade e responsabilizar mais quem comete crime contra a criança.          

A Cultura do Estupro de Criança e a Pedofilia Intrafamiliar Acobertada - Final.

 

A Cultura do Estupro de Criança e a Pedofilia Intrafamiliar Acobertada - Final

     Como havíamos comentado, a comoção em torno da menina grávida aos 10 anos, resultado de abusos sexuais intrafamiliares desde os 6 anos, já se dissipou. Isto é bom quando dá lugar à atitude responsável. Mas o que apareceu foi uma Portaria do Ministério da Saúde, que, prontamente, incrementou a pressão sobre as meninas grávidas, inclusive “oferecendo” a imagem ultrassonográfica para plantar a culpa da mãe/menina. Qual seria a razão de mostrar a imagem do embrião/feto para uma menina? Não podemos deixar de pensar que a intenção é assombrar a criança, vivendo a dor do estupro continuado e perpetrado, na grande maioria das vezes, por alguém que ela ama e obedece, que quebrou a interdição ao incesto. A interdição ao incesto, não podemos esquecer, é o marco civilizatório da humanidade.   

     O tempo midiático passou. Até mesmo a querela religiosa perdeu as cores aberrantes e berrantes. Mas não foi e estupro continuado que mexeu com a sociedade. Não foi a desproteção de uma criança emblemática, pelo Estado, pelas Instituições Públicas e Civis, pela sociedade toda. O que estará acontecendo agora com aquela menina? Sem poder voltar para sua casa bem precária, mas onde estavam seus poucos objetos pessoais. Sem cheiros, os ruídos, o claro e o escuro, ambiente que estava acostumada. Não era bom, doía, mas era conhecido. Mas nossa transgressão arraigada, não permitiu nem mesmo a existência social desta menina. A ganância pela sensação ilusória de vencer uma guerra, tirou desta menina a identidade dela porque ela não queria continuar arriscando a própria vida por uma violência que não iria nunca descolar do resultado de estupros continuados por anos. Perdeu o nome. Talvez o seu único bem durável, já que o corpo já lhe tinha sido roubado e deformado pela violência.

     Sobrevivente de uma tatuagem impressa em sua alma, esta criança, representante de milhares de outras crianças, vive uma solidão de grande dimensão. Tem 10 anos, mas envelheceu. Sua memória transborda de lembranças que quer esquecer. Perdeu o processo de confiar no outro. Perdeu o processo de se sensibilizar e se colocar no lugar do outro. Perdeu a conexão com seu corpo que terá que carregar para sempre como sujo, vergonhoso, testemunha permanente do horror que viveu no lugar da infância.

     Mas, já a esquecemos. E, nada fizemos, efetivamente. A fila andou. Uma nova menina 11anos, está com 8 semanas de gravidez. Foram 84 meninas entre 10 a 14 anos que deram à luz em um trimestre. Este número se refere apenas às crianças que chegaram ao hospital. Quantas teriam sido de verdade? A Portaria do Ministério da Saúde, tão desfalcado, traz mais pressão, denúncia policial, para o cumprimento da lei de interrupção de gravidez na infância e na adolescência. Já há um artigo no ECA que fala da obrigatoriedade de denunciar à autoridade competente o abuso sexual. Pais, responsáveis, professores, médicos. Por que, novamente, fazer sobreposição neste momento, apontando para as meninas estupradas que engravidaram? Os médicos preferem não enxergar os vestígios dos abusos intrafamiliares. As ameaças, o Backlash, é certo. E muitos fogem do problema que terão que encarar. Meninos e meninas são abandonados por profissionais que tomam conhecimento, mas preferem calar. Omissão ativa.

     Para completar o requinte de crueldade, o médico deve oferecer a imagem da ultrassonografia para a criança ver. Nesta mesma linha, surgiram inúmeras ideias de campanhas para ensinar a criança a dizer “não” para o abusador. Qual será a criança que não disse “não” ao abusador? Todas disseram e dizem. E, qual foi o abusador que atendeu à criança? Lançaram uma chantagem ou uma ameaça e foram em frente. Mais uma vez, a sobrecarga em cima do vulnerável.

     Não encontrei nenhuma ideia sobre o abusador. Nem o da menina em foco, nem sobre nenhuma responsabilização de quem comete este criem. Alguns xingamentos, mas nenhuma reflexão que possa promover proteção para a criança. Faz-se necessário responsabilizar autores incestuosos de abusos sexuais intrafamiliares, garantindo os Direitos Fundamentais da Criança e do Adolescente. Urge o combate à Cultura do Estupro de Criança. São meninas que engravidam ainda na infância, são meninos que estão sendo criados pelos seus abusadores por conta de um vício jurídico de nome alienação parental. São bebês que têm seus corpos violados para a produção de vídeos pornográficos na indústria milionária deste novo formato da Exploração Sexual de Crianças, submetidas ao trabalho escravo dentro de suas próprias casas. Bebês que sofrerão de uma angústia corporal flutuante, porque ainda nem possuem a noção de esquema corporal. Menos ainda a aquisição da linguagem para localizar e descrever esta angústia. Antes de adquirir a capacidade de representação, foram coisificados.

     Os Crimes de Pedofilia Intrafamiliar, mal investigados, muitas vezes não investigados, impunes, estão exterminando toda uma geração que está sendo mutilada civilmente. Todos, somos responsáveis pelas nossas crianças. Por que não responsabilizar culpados? Onde estão as Políticas Públicas de efetiva eficácia? Proteção pertinente, persistente, e consequente? A ausência das Políticas Públicas de Responsabilidade nos aponta a conivência silenciosa, por vezes ruidosa agora, com a Cultura do Estupro de Criança e Adolescente. Quando vamos fundar a Cultura do Respeito? Respeito às Leis, Respeito às Crianças, Respeito às Mulheres, Respeito aos Idosos, Respeito às Minorias, Respeito aos Portadores das Diversas Diferenças. As ditas “exceções” também são cidadãos.    

ABUSO SEXUAL, aborto, estupros diversos, uma tatuagem em meninos e meninas.

 

ABUSO SEXUAL, aborto, estupros diversos, uma tatuagem em meninos e meninas.

     Este tema incomoda só em pensar. Mas, há alguns todos ficamos indignados com a gravidez de uma menina de 10 anos. Foram 84 meninas de 10 a 14 anos que dão à luz, em um trimestre, no nosso país. As notificadas. E quantas foram as que pariram em casa? Nestes números temos apenas as ocorrências que crescem no ventre de uma criança por 9 meses e nascem. E as ocorrências que evitam, por razões óbvias, o canal vaginal das meninas? Sabemos que o abuso sexual é um crime quase perfeito. Não deixa marcas, não permite a prova, portanto. Temos apenas duas pessoas na cena do crime: o abusador e o abusado. Logo, temos apenas 1 única pessoa que poderá relatá-lo.

     As meninas, mesmo antes da menarca, a primeira menstruação, podem vir a engravidar pela atividade hormonal que já está em curso. Mas o corpo não comporta uma gestação, colocando assim sua vida em risco. Este, aliás, é um dos 3 itens previstos na lei do aborto legal. Lei de 1940. Os outros 2 itens dizem respeito ao estupro, e à anencefalia. Assim, aquela menina que provocou uma comoção social, estava contemplada com 2 dos 3 itens do aborto legal. Mesmo assim, vimos um deslocamento do foco da questão, o abuso sexual continuado que sofria desde os 6 anos, aproximadamente. A questão passou a ser uma posição moral, alegada religiosa, radicalizada, que passou a estuprar a menina de outra maneira. Desconsiderados os estupros continuados, e o risco de morte que a menina estava exposta por uma gravidez precocíssima, a lei foi violada. Divulgação da identidade da menina garantida pelo ECA, divulgação do endereço de moradia da criança. Nada detinha a fúria das pessoas que defendiam uma posição ideológica religiosa, atropelando a lei civil. Desrespeito. Insensibilidade. Hoje, mais uma menina, 11 anos, no mesmo Estado, foi hospitalizada.

No entanto, o Ministério da Saúde emite Portaria que visa a intimidação e o constrangimento. Não se exige que os médicos notifiquem os abusos que causaram fissuras anais, (notificação obrigatória pelo artigo 13 do ECA),mas vai se exigir que se notifique quando a interrupção legal da gravidez for pedida? Além da perversidade de propor mostrar a imagem ultrassonográfica do embrião/feto para a menina se assombrar o resto da vida.

     E os meninos? Pedófilos praticam estupros em meninos. É equivocada a impressão de que o abuso em menino implica em homossexualidade do abusador, e vai produzir um homossexual no abusado. Apesar de ser encenado em terreno de sexualidade, o abuso sexual não diz respeito à sexualidade. O abusador não é um hiperssexualizado, não é um tarado. O abuso sexual refere-se não ao prazer sexual, mas ao gozo do Poder absoluto. É a sensação de Poder advinda da dominação, da opressão do outro, que importa para um abusador. Assim, há um enorme número de abusos sexuais intrafamiliares que acometem os meninos, mais sub-notificados do que os casos de meninas.

     Uma evidência disto é o número crescente de vídeos pornográficos de abusos sexuais em bebês. Esta é a nova formatação da Exposição Sexual, a Intrafamiliar, usando bebês em cenas degradantes. Os bebês não são aliciados pelos pedófilos da internet. O material pornográfico de bebês é todo doméstico, familiar. O corpo de um bebê, como o dos meninos, e das meninas de menos de 10 anos, não possui nenhum atributo de sensualidade. E os bebês ainda contribuem com o pacto do segredo blindado, porquanto ainda não adquiriram a linguagem. Mas, a voz da criança não tem sido escutada nem considerada. Absurdos têm sido cometidos, com nossa omissão, para o acobertamento de pedófilos abusadores que descumprem a interdição ao incesto, o marco civilizatório da humanidade.

O abuso sexual de criança também ocorre em Público.

 

 O abuso sexual de criança também ocorre em Público

     Temos a equivocada impressão de que o abuso sexual só acontece na calada da noite, em ambiente fechado. O abuso sexual de crianças e adolescentes acontece de noite e de dia, no cantinho privado ou em meio às pessoas da família, no banho de mar, disfarçado por baixo de um determinado edredon na sala de televisão, ou explícito e público.

     Era verão, um final de tarde de domingo. No ponto carioca apelidado de “baixo-bebê”, em meio àquela multidão de bebês, crianças, mães, pais, babás, avós, uma família se preparava para voltar para casa. A mãe se ocupava do bebê recém-nascido, um pouco mais de 1 ano de idade. Este pai, ali no calçadão em meio a todos, a despeito de trocar a menina, tirou seu biquíni e colocou-a escanchada na sua barriga, também nua. O roçar de sua genitália na barriga e nos pelos da barriga do pai produziram uma resposta imediata: uma sensação prazerosa. O alheamento da menina fez-se visível, o pai parecia se orgulhar de estar como “o dono”, também se satisfazia com o contato de intimidade excitante pele-mucosa, pele dele, mucosa genital dela, por ele estabelecido, a mãe não querendo ou não podendo ver, ficava com o recém-nascido. Quando alertada, preferiu continuar não vendo. O pai, então, atravessou a extensa faixa de areia, levou a menina até a água, e, depois de alguns minutos, voltou com a pequena menina extasiada, como que paralisada na mesma posição. Uma cena de masturbação pública de uma menina quase bebê.

     A atitude desinibida e confiante do abusador opera uma inversão na sensação de dúvida nas pessoas em torno. É tão explícito que, rápida e facilmente, afastamos a percepção que estamos tendo, desviamos nosso olhar, não estamos mais vendo o que estam0os vendo. E, muitas vezes, ainda nos culpamos por termos tido aquele pensamento, aquela mente suja passa a ser a nossa.

          “Ele entrou no mar com o fulaninho no colo, chorando sem querer ir, passou o quebra mar, ficou no fundo com o filho no colo por algum tempo. Quando saíram, o menino não chorava mais, e ele estava com ereção. Fiquei chocado e imobilizado, não fiz nada, não sabia o que fazer, desviei o olhar achando que estava vendo “coisas”. Só hoje sei o que aconteceu.” (Relato de um tio do menino, 4 anos, abusado pelo pai.)

     Sair do mar com uma criança no colo e evidência de ereção compõem uma cena tão repugnante que muitas vezes nos damos explicações mudas, preferindo, como aquela mãe citada, não ver o que vimos, porque esta aberração, como se nada fosse, não cabe na nossa mente.

     A criança abusada, frequentemente, é mantida pelo abusador em seu colo em lugares públicos, em festas familiares, até em festas de aniversário de outra criança. Esse comportamento está relacionado a 3 fatores: o primeiro refere-se à compulsão do abuso, ao prazerzinho da pequena excitação ou ereção do abusador; o segundo ao prazer da onipotência delerante do “ninguém me pega, faço na frente de todo mundo e ninguém vê”; o terceiro refere-se ao medo de ser denunciado pela criança neste tipo de situação de mais difícil controle sobre sua vítima. Este a mais de adrenalina que tanto aprecia.

          “Mãe, aqui nesta foto tinha uma coisa dura embaixo de mim, era no colo do pai, e ele me segurava, eu queria ir brincar com meus primos e ele me apertava.” (Menino de 7 anos, abusado pelo pai, vendo uma foto do aniversário do irmão menor.)    

     Outra situação de abuso público, muito frequente, se passa na festinha da menina de 6-7 anos. A música que divide radicalmente opiniões, mas para parecer “estar por dentro da moda”, a festinha passa a tocar, as meninas se põem a dançar até o chão com poses sensuais explícitas, logo rodeadas pelos adultos a filmar e fotografar, mas, sobretudo, a olhar. Tios, avôs, outros pais, olham com interesse masculino adulto, com fantasias sexuais. É uma sessão de voyeurismo público compartilhado por todos que, babando, parece se divertir muito, com o exibicionismo, atendido pelas meninas ainda muito pequenas para saber qual o tipo de satisfação que estão provocando naqueles homens adultos.

         “Vamos parar de dançar porque você me deixou de pau duro”. (Disse o tio-padrinho à aniversariante em seus 15 anos, no meio do salão cheio de pessoas, familiares e amigos.)

     Este é um capítulo de meu livro “Abuso sexual, uma tatuagem na alma de meninos e meninas”. São muitas as formas de abusar de uma criança, inclusive na presença de muitas pessoas.  

Respeitar o brincar da criança, é fundamental - Parte II

 

Respeitar o brincar da criança, é fundamental - Parte II

       A nossa inteligência nasce de descargas gestuais descoordenadas. Daqueles impulsos espasmódicos surge o estímulo sonoro ou tátil que será buscado por repetição. Inicialmente, estes movimentos continuam sendo descoordenados, mas a insistência do bebê em procurar aprimorar os movimentos para reencontrar a sensação do chocalho, não mais por acaso, mas por intenção. É a intencionalidade nos movimentos motores, o uso de um movimento para obter um estímulo, que atesta o nascimento da inteligência.

     Com a destreza melhorando, o bebê consegue tornar mais complexa a sua exploração do seu entorno. Nesta direção do desenvolvimento, os movimentos repetitivos ganham um componente relacional. Surge o brincar. Experimentar o “deixar de existir” e o “voltar a existir” na brincadeira de esconder o rosto atrás de um de seus paninhos que o adulto propõe com a simples pergunta “cadê o nenê?!”, e a alegria salta barulhenta. Este é o primeiro brincar e se estabelece na relação entre o bebê e um adulto preferencial.

     Parece um comportamento apenas engraçado, só uma nova gracinha. Mas, esta brincadeira é muito importante no desenvolvimento cognitivo e afetivo. A conduta do “cadê o nenê” amplia o movimento motor, introduzindo o tempo de espera atrás do anteparo/paninho, e a alegria do voltar a ver o outro. Há uma interiorização da experiência agradável, com uma representação mental, que dará lugar à função simbólica. Está fundado o primeiro jogo simbólico, em linguagem gestual.

     Este é o início do período pré-operatório do desenvolvimento cognitivo. Foi denominado por Piaget, de Função Semiótica o conjunto de 5 condutas que avançam na direção da capacidade de simbolização, quais sejam: a imitação diferenciada, o jogo simbólico, o desenho, as imagens mentais e a linguagem. A Função Semiótica inaugura a compreensão e uso do indício, do símbolo e do signo, este, o signo, tem na aprendizagem escolar, um pouco mais tarde, sua ampliação, porquanto as letras, palavras e algarismos são a representação arbitrária convencionada. Ou seja, convencionou-se no ocidente, por exemplo, que as letras do alfabeto têm o desenho reconhecido por todos, e correspondem ao som que as fundamenta. Foi uma decisão de representação arbitrária. E esta cadeia de condutas que contempla os conceitos de indício/sinal, símbolo, e signo, vai tornando a experiência relacional cada vez mais aprimorada.

     Este processo de interiorização se faz em sua maior parte pelo comportamento de imitação. Aquela cena, que quase todos viram, da criança chegando à sala com os sapatos do pai ou os da mãe, caminhando com dificuldade pelo esforço de carregar nos pés calçados tão maiores, retrata bem uma série de pontos afetivos. O momento mostra o desejo saudável de identificação através da imitação. Palavras, gestos, preferências, são a comunicação deste processo de interiorizar aquela figura afetiva, pela identificação.

     Nossos avós diziam que se ensinava com exemplos, não com palavras. Esta é uma maneira de falar da importância da imitação. Este comportamento constrói uma grande parte do desenvolvimento, seja cognitivo, motor, linguístico, ou afetivo, de cada um durante a infância. Mas deve ir abrindo espaço para a subjetividade própria numa mistura harmoniosa e saudável. A adolescência chega para dar um corte nos modelos “copiados” que fizeram a imitação na infância. Para o adolescente, nada daquilo serve, ele “descobriu” o melhor de tudo. E isto, mesmo que não muito agradável de acompanhar, é muito necessário para a construção de sua personalidade. Com a maturidade, ele vai faze as pazes com muita coisa que rejeitou na adolescência, mas já terá apaziguado impulsos, muitos movidos à transformação hormonal do crescimento, fazendo com que seu medo de continuar criança, dependente da aprovação dos pais, tenha se dissipado um tanto.

     No entanto, por vezes, os adultos apelam para o comportamento imitativo. O medo da rejeição é um fator que influi muito em momentos que irá contrariar seu grupo. A imitação traz uma espécie de blindagem por ficar com a ilusória sensação de proteção dos seus pares. E a regressão é uma saída para a insegurança que surge, principalmente, em situações em que há uma radicalização, uma pobreza de reflexão do ou isto ou aquilo.

     Na prática de bullying entre crianças, observa-se a conduta de imitação dos alunos testemunhas, pelo medo de contrariar o autor das agressões. Esta é uma atitude que evidencia o medo, a insegurança, e a inautenticidade. O autor de bullying exerce esta intimidação, explícita ou velada, entre o grupo, por vezes com um simples olhar que anuncia sua violência contra quem não ficar do seu lado. Este fenômeno reaparece durante a vida toda em pessoas que carregam sintomas leves ou moderados de estresse pós-traumático porque sofreram na infância com situações opressoras. São os prejuízos permanentes da irresponsabilidade dos deveres de todos, e do Estado, através das violações de Direitos de Crianças.

      A capacidade de representação, já que, como nos ensina a Filosofia, a coisa em si não pode ser tocada, é construída em processo longo que por contiguidade, por analogia, ou por convenção arbitrária habilita, gradativamente, a criança neste contínuo da experiência cognitiva, afetiva e mnêmica, que dá voz e vozes ao estar no mundo. E isso tudo começa no “cadê o nenê?!”  

Respeitar o brincar da criança, é fundamental - Parte I

Respeitar o brincar da criança, é fundamental. – Parte I

     Não damos importância ao brincar da criança. É preciso conhecer melhor o mundo infantil, e sua função no desenvolvimento e na estruturação da personalidade que está sendo construída. Parece que esquecemos o que era viajar no imaginário. Como era forte a sensação de que não existia mais nada ao redor. Podia ser no quarto, na sala de casa, na sala do pediatra, no parquinho ou no recreio na escola. Podia acontecer com um colega, mas não era indispensável, podia ser sozinho. Aliás, esta era a melhor condição para o brincar de faz de conta. Sozinho.

     Não era preciso nem companhia, nem brinquedos estruturados. Na ausência das miniaturas do mundo, bonecas, carrinhos, mobiliário da casa ou da escola, um lápis pode se tornar uma pessoa que conversa com outra pessoa-lápis. Ou ainda, na ausência maior, o gestual é o suficiente, e uma criança pode servir uma fatia de bolo invisível, que vem numa mãozinha cuidadosa para não cair. Alguns adultos demonstram dificuldade de se deixar levar e partilhar um pouco dessa viagem ao imaginário. Afinal, o adulto já vive preocupado com o medo da crítica do outro, já tem medo do ridículo que o outro pode lhe atribuir ao ser observado em comportamentos que só tem a lógica infantil do faz de conta.

     Para a criança, estas excursões ao seu mudo de fantasia, são de fácil acesso. No entanto já aos 3 anos, ela é capaz de distinguir a fantasia da realidade. Este é o momento que a criança aprende a sublinhar o que é real, dizendo “verdade verdadeira”. Assim, ela afirma, de maneira simples, mas firme, que conhece a realidade. Esta capacidade não tem sido respeitada. Muito frequentemente, quando se faz necessário por interesse de um adulto, a criança é desqualificada nesta capacitação. O fato de ter facilidade de acessar o imaginário, não quer dizer que a criança não tenha os recursos para fazer esta diferenciação.

     À medida que o desenvolvimento avança, a criança vai adquirindo a vergonha do seu imaginário, o medo da crítica do outro. Um pequeno faz um rabisco, quase um círculo amassado e aberto, e puxa dois riscos de tamanhos diferentes, as pernas, e diz que é uma pessoa. Se tiver uns espetos na pretendida cabeça, vai dizer que é a mãe. É o cabelo. Mas esta liberdade de expressão irá perdendo espaço. A atividade imaginária vai sendo guardada, muitas vezes, reprimida. É muito comum que ela seja associada à loucura. Isto é uma ameaça que ronda a todos. Perder o domínio sobre a mente é muito assustador, sim. Mas a atividade imaginária não é loucura. Este medo, quando exacerbado, opera uma inibição do imaginar, e da consequente criatividade. Esta inibição conduz ao apego excessivo ao concreto, causando, por vezes, um empobrecimento da possibilidade de criar, que está em vários momentos da nossa vida adulta. A criatividade não é exclusividade das artes. A criatividade está também em todas as atividades humanas, e é responsável pela evolução das Ciências, até das Ciências Exatas, do Conhecimento de todas as ordens.

     O brincar é coisa séria. E é o alicerce da nossa subjetividade. Mas é visto como coisa menor, que deve preencher as horas vagas. Muitos pais têm a tendência a encher todos os horários das crianças, pensando, equivocamente, que vão fazer os filhos saírem na frente dos outros na competitividade social. Outro equívoco é pensar que criança não pode ficar parada, que criança parada é criança doente. A vida imaginária, tão essencial, é alimentada pelos momentos parados, pelos momentos solitários, pelos momentos de sussurros ou de silêncios da criança.

     Inventar um objeto, um sistema, uma teoria, é um desdobramento deste brincar imaginário, livre. A capacidade de viver a liberdade é tanto maior quanto mais vivida foi a atividade imaginária na tenra infância. Para tal, não há necessidade de espaço físico, de quantidades. A criança vai solidificando este libertar-se. A liberdade é uma construção das sucessivas experiências de conexão com o mundo imaginário subjetivo, conexão com o mundo interno sem medo.

     O faz de conta na infância é saudável. Na infância. Respeitar esta atividade é colaborar com a boa saúde mental da criança. Deixá-la consigo mesma para que conviva, calmamente, com seu imaginário, favorece sua autoconfiança.