domingo, 11 de janeiro de 2026

Feliz Natal

Feliz Natal! O dia, a véspera comemorativa, já passaram no calendário. Mas continuamos em tempo de Natal. Deveríamos ter mais dias de Natal no ano, para que desejássemos mais vezes coisas boas para os outros. Nesse tempo, o cumprimento se torna gentil, carinhoso, com bons desejos. Deveria ser mais vezes. Escrevi e publiquei em meu blog esse texto de Memórias, que me são muito queridas, em dezembro de 2014. Era a década de 50. Em meio à selvageria, podemos também resgatar nossos tesouros. Então: Feliz Natal. Já fui criança. Guardo nítidas as memórias desta data. À noite, minha mãe enfeitava os quatro filhos com roupas novas, as cartinhas já tinham sido devidamente entregues ao Papai Noel da grande loja de brinquedos “Viana Leal”, e saíamos para ver as árvores de Natal dentro do Rio Capiberibe e Beberibe. No portão da casa, minha mãe sempre parava e dizia para o meu pai ir dar uma olhada para verificar se tinha fechado todas as portas e janelas. Ficava intrigada. Se o papai Noel vinha e estava tudo fechado, não tinha chaminé, como deixava os nossos presentes. Mas não ousava perguntar, hoje eu sei, porque queria continuar a acreditar na fantasia. Meu pai voltava lá de dentro da casa, e dizia à minha mãe que estava tudo fechado. E íamos pegar o ônibus. Chegávamos à festa! A alegria no ar, o centro da cidade estava brilhante, luminoso, as pessoas sorriam umas para as outras. Os rios espalhavam replicando aquelas luzes. As pontes estavam enfeitadas. As árvores, que lindas! Eram muitas, muitas! Não conseguia contar quantas. Boiavam, magicamente, nos rios. As luzes das simples lâmpadas daqueles cones grandes equilibrados nas águas dos rios calmos, se multiplicavam e se multiplicavam no reflexo. As pontes exibiam seus colares de pérolas, que também passeavam pelas águas. Havia uma música de Natal que se escutava de vez em quando, com um som misturado a ruídos e chiados. Mas, não tinha problema, era lindo assim mesmo. Muitas famílias estavam por ali, gentis e sorridentes desejavam Feliz Natal! Sempre me ocorria a pergunta, que só pensava, como a eletricidade não dava choque ali, nem para o moço que havia colocado. Já tinha aprendido que não pode pegar em fios quando o chão está molhado. Ali tinha muita água. Depois de tanto êxtase, voltávamos e encontrávamos a satisfação dos nossos desejos realizados. Os presentes do Papai Noel. Ele tinha atendido a cada pedido de nós quatro. Era mágico! Que coisa boa! Sentávamos à mesa, uma pequena oração de agradecimento, e minha mãe servia a ceia. Coisas especiais, pouca coisa, era tarde, uma delícia! Terminada esta refeição especial, com o coração satisfeito de alimento, sentávamos à sala, meu pai numa poltrona, minha irmã grande ao piano, minha mãe arranhava o violino e nós três menores, sentadinhos pelo chão, entoávamos as canções de Natal. Era muito lindo! Feliz Natal para todas as crianças. Aquelas que têm uma família que cumpre sua função, mãe sendo mãe, pai sendo pai. Feliz Natal para as outras crianças. As que hoje estão servindo de objeto sexual de um adulto perverso que rasgou seu título de parentesco. Desejo de todo o coração que estas outras crianças, as pequenas e as que já cresceram, que tenham esperança na modificação do seu sofrimento, que acreditem que podem um dia minorar e melhor administrar sua dor onipresente. Ana Maria Brayner Iencarelli. 24 de dezembro de 2014.

Nenhum comentário:

Postar um comentário