sábado, 17 de janeiro de 2026
Ainda Feliz Ano Novo!
Ainda: Feliz Ano Novo!
Tempo alegre, tempo de bons propósitos e bons votos. Sorrisos abundantes!
Paz, saúde, felicidade, amor, dinheiro. Talvez esses tenham sido os maiores desejos que compuseram os votos de Ano Novo. A alegria era verdadeira. A esperança em dias melhores era a todo momento referida. Os repórteres fazendo o trabalho, contentes, não se davam conta da monótona repetição dos bons votos.
Mas algo começou a me soar estranho, e não eram as felicitações. Estava me sentindo sendo arranhada. Comecei a prestar mais atenção nas falas. Eram legítimas naquele clima de alegria. Onde estava a varinha de condão que transformou tão radicalmente o clima. Não me refiro ao clima geológico, falo do clima social e afetivo. Até um dia atrás nossas mentes eram invadidas por fatos cruéis expostos nas mídias.
Estávamos, por um longo tempo, imersos num mar de violências com resultado Feminicídio. Uma enxurrada que não veio de um forte temporal, mas das mãos de homens armadas de facas, de revólveres, de carro em velocidade, de álcool e fósforo, em atrocidades inimagináveis, na presença das crianças da casa. As mesmas crianças que estavam na expectativa da visita do Papai Noel, prestes a chegar, depois de um ano de espera. Mas a magia desse tempo, que habita o imaginário e os registros mnêmicos de todos, não foram capazes de conter as mãos da barbárie.
Comecei a me indagar: por que será que ninguém desejou respeito, desejou muita tolerância, desejou muita empatia, desejou muita solidariedade? Em momento que desejos utópicos são benvindos, por que ninguém desejou que acabe a violência contra as mulheres, ninguém desejou o fim dos feminicídios? Ninguém. Nem mulheres que são o próximo alvo, por excelência, e pior, nem homens. Sim homens. Eles compõem o elemento predador, em proatividade. Todos? Não. Os que assassinam mulheres e os que se mantém em silêncio. Não matam, mas não combatem, proativamente, sonoramente, ruidosamente, explicitamente. Não basta ser contra baixinho, só quando perguntado. Faz-se necessário se engajar, entrar no combate, que não quer dizer pegar um megafone e sair pela rua gritando, mas é, principalmente não ficar em silêncio depois de uma “piadinha” sobre mulheres. A omissão nos coloca ao lado do agressor, não existe “posição neutra”. Os opressores são alimentados pelo silêncio de quem testemunha um ato de violência, de qualquer tipo.
É preciso que todos saiamos em campo, em família, nos trabalhos, nas reuniões sociais, no sistema educacional, para detectar a capilaridade das raízes da misoginia, que nasce de um microponto multissecular que estabeleceu uma desigualdade de qualidade, atribuída à mulher. Para demolir a misoginia, que é estrutural, e ancestral, necessitamos de um duro trabalho contínuo, executado com afinco e persistência. Não basta não se intitular misógino ou misógina, fenômeno, aparentemente, incongruente que urge ser estudado a fundo. Mulher que odeia mulher, e ataca. A mulher é alvo de ódio pela capacidade exclusiva da maternidade, lhe sendo atribuída a definição de ser a criatura que se comunicou em diálogo com o diabo. Não precisa ser religioso, há sempre outro caminho para lhe atribuir a maldade, uma alta periculosidade. É ela que tem uma caverna que não se pode ver, que já até fabularam como sendo dentada, a expressão de violência que lhe é atribuída. É ela que, em dois pedaços de seu corpo, produz o leite que mantem a vida para toda a sua descendência. É ela que, pela intimidade com a Natureza, era capaz de ter o conhecimento das ervas que curavam, ganhando, assim, o título de bruxas. Obrigadas à condenação à morte, queimadas vivas em fogueira, em local público, deixando o rastro do terror em todas as mulheres. Hoje, há mais sofisticação para essa condenação institucional à morte. O segredo de justiça se encarrega de “um faz de conta” de proteção que, na verdade só beneficia o agressor, sob os auspícios da lei. Até as crianças tomam conhecimento do cancelamento da mãe do amiguinho, sob o patrocínio dessa lei. O entorno daquela mulher que buscou a Justiça para proteger seu filho de um predador, assiste em silêncio o esmagamento da Maternidade dela.
O Poder de gestar e amamentar, Poder da Maternidade, foi desidratado até se tornar um pó, visto como venenoso, pintando o Poder do Gênero com as cores da maldade, as tintas da perversidade. E, mantendo a Ordem Global da Submissão, a total obediência. Matar é, apenas, um ponto nesse extermínio da Maternidade. Esse, me parece, ser um projeto político.
Aliás, essa enxurrada de Feminicídios parece a reinstalação de outro tempo de caça às bruxas. Leis misóginas, como a LAP, igualmente, cumprem essa função de caçá-las silenciá-las, aniquilá-las. Queimá-las em vida. E, vale ressaltar, que essa lei e os procedimentos perversos dela decorrentes, são operados por mulheres também que seguem preconceitos, e se alojam no mecanismo de defesa da Identificação com o Agressor, o predador.
A prática da desconexão com o outro, a outra, nessa pauta, alicerça a misoginia em suas várias camadas. É possível observar, com um pouquinho só de atenção, que o Feminicídio Social é um processo que é mantido pelo silêncio conivente, além da postura proativa, hoje escancarada nas redes sociais. É a omissão diante dos atos e dos discursos de ódio, que dá autorização à barbárie.
Desejo a todos que em 2026 possamos trocar mais Respeito, ter mais Tolerância, juntar mais Solidariedade, construir Empatia, e perder o medo em Desagradar agressores. Desejo, sobretudo, que sejamos Honestos.
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