terça-feira, 14 de abril de 2026
Conhecimento X Divulgação, as atrocidades ganham status.
Conhecimento X Divulgação, as atrocidades ganham status.
O desconhecimento da realidade da violência intrafamiliar contra a criança, é enorme. Não se tem a menor noção da dimensão de ocorrência dentro das casas. Então, surgem as informações.
A divulgação dos casos parece ter se tornado um “apagar uma fogueira jogando gasolina”. É evidente um aumento exponencial dos casos. A dúvida sobre esse aumento acentuado da violência física e da violência sexual em crianças, adolescentes e mulheres coloca hipóteses opostas em pauta. Uma corrente defende que não aumentou, que há mais visibilidade, portanto, a sensação é de crescimento de casos. Seria um aumento de divulgação, com o acréscimo das redes sociais, do tempo quase real.
Por outro lado, a corrente que vê sinais apocalípticos, aponta para uma degradação do ser humano, transbordando as fronteiras de nosso país. O mundo está amargando violências. A França, um país do grupo dos ricos, um país com uma intelectualidade, com um índice de leitura que chega ao índice de mais de 4 livros por ano por indivíduo, que prima pelo hábito da reflexão, e pelo hábito do humanismo, está discutindo muito os mesmos casos de violência que temos por aqui. No entanto, em número bem reduzido. Eles estão hiper preocupados com o índice de um feminicídio a cada 3 dias. Entre nós, são 4,2 feminicídios a cada 24 horas. Assim também as outras formas de violência física e sexual, o mesmo modus operandi, as mesmas histórias, mas, a quantidade é bem menor. E eles estão debruçados, dedicados, para entender mais, apontar as falhas do sistema, do Estado, e buscar soluções, em verdadeira preocupação. Tenho acompanhado e participado de alguns desses grupos de discussão, e observo que há diferenças de postura interessantes entre os dois países. Eles não têm um Estatuto da Criança e do Adolescente, ECA, com sua abrangência sólida. Eles não têm uma Lei Maria da Penha que tipifica 5 modalidades de violência, estando prestes a ter incluída a Violência Vicária, importante passo. Mas mesmo sem leis específicas e abrangentes, a diferença entre o cuidado com as vítimas é bastante diferente. E, acrescento, também lá é possível observar a nossa conhecida omissão do Estado.
A questão que gostaria de trazer à baila, se refere à linha tênue que divide o que é informação para a aprendizagem de área tão difícil de aguentar, e a propagação de novas possibilidades de praticar barbárie. Estou falando do aproveitamento que há ao se divulgar fatos cruéis que passam a servir de inspiração para os indivíduos cruéis acrescentarem a seu deplorável curriculum.
Não por acaso, no dia seguinte à audiência de julgamento e instrução do assassinato do menino Henry, uma bebê chegou à emergência em estado similar ao do Henry quando veio a óbito. A bebê tinha 1 ano e 8 meses, e tinha várias lesões pelo corpo e traumatismo craniano. Ela, também, como alegado pela mãe e padrasto de Henry, teria “caído da cama”. As múltiplas lesões por espancamento em crianças, teve um aumento consistente desde a divulgação do caso Henry.
As notícias dos numerosos feminicídios são tão parecidas em suas descrições que até pensamos que já havíamos escutado. Facadas são seguidas de facadas. Tiros se repetem na mesma semana também. E os socos no elevador são plagiados em sequência.
Os estupros coletivos são muito parecidos depois do “primeiro” noticiado. E, até o Orelha encabeçou uma lista que se seguiu, com outros cachorros, com capivaras, com gatos, sendo abatidos com paus e pregos.
E deram mais algoritmos aos vídeos do passo a passo, da tutoria de tortura de cachorros, bebês e mulheres, garantindo o prazer do Poder sobre um ser vulnerável. Há alguns bons anos, nos deparamos na deepweb com a existência de um grupo de médicos que dava tutoria para abusos de meninos, com medicação para entorpecer, e pomadas específicas para cicatrizar as fissuras, com as instruções para a posologia. Tudo certinho. Tinham mais de 70 mil seguidores. Hoje, o acesso a esse tipo de “bula” é muito mais fácil.
Para a arraigada Cultura do Estupro não há lei, não há regramento. Até porque ter leis não produz proteção nem respeito. Temos leis belíssimas, que ficam, muitas vezes, nas letras. Não há vontade política nem entre os políticos, nem entre os cidadãos.
Não estou propondo censura, mas cuidado. Mentes anômalas se alimentam dos dados e fatos de crueldade. Volto a insistir. Precisamos pensar de que maneira devemos divulgar conhecimento para combater a ignorância da realidade, sem que se constitua em estímulo à perversão. A divulgação de detalhes, além de minimizar, banalizar comportamentos aberrantes, dá inspiração a mentes anômalas. O desejo inconsciente dos 5 minutos de fama em ambiente mental desviado, é despertado, e se apraz com o forte tempero do escândalo. Claro que quanto mais aberrante, mais escandaloso, mais likes, mais algoritmos. Num mundo tão exibicionista e vouyeurista, a monetização, em valores altos, do sofrimento de vulneráveis é muito rentável.
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