quarta-feira, 19 de novembro de 2025

A Dor da Barbárie.

A Dor da Barbárie Muito já se falou. Não pretendo discutir sobre o aspecto político, nem sobre o aspecto policial. A institucionalização da avalanche de crimes cometidos por uns e por outros acaba por confundir nosso pensamento. Erros em profusão, atuais e antigos que sustentam a política de Apartheid em nossa cidade. É Apartheid. Só que é velado, não é chamado pelo nome. E não se restringe à geografia, ao CEP. O Apartheid está como preconceito em muitos lugares sociais, atinge a Cultura, atinge a Escolaridade, atinge a Saúde, atinge os Direitos Fundamentais. A permissão de um cidadão de um lado, todos são marcados para além da cor da pele e da roupa que vestem, estar na área do outro, até, existe em certas circunstâncias. O cidadão da favela/comunidade pode cuidar dos filhos do cidadão /cidadã do outro lado. Pode limpar a casa ou cozinhar no CEP do outro lado. Em algumas favelas/comunidades o cidadão do outro lado pode ir ao restaurante que entrou na moda, com vista maravilhosa, que ficou badalado pela boa culinária. E até os cidadãos de outros países contratam circuitos em jipe para safari de turistas para passear na favela. Bem pitoresco. Curioso, mas não desperta curiosidade em quem deveria ter vontade política. Urge acabar com esse Apartheid. Não vemos nenhuma pré iniciativa para demolir o muro invisível, mas concreto no cotidiano de todos, que separa um olhar de circo e um olhar serviçal. São muitas outras peculiaridades que são vistas como antagônicas. Mas algumas delas, nem são tão antagônicas. O tráfico de drogas em meio a armamento pesado é atribuído ao lado das favelas/comunidades. Tirando as armas, ele ocorre no outro lado também, mas fica invisibilizado, apesar de ser a mesma droga e ter os mesmos efeitos quando é comercializada nos colégios e faculdades privados. E esse tráfico silencioso causa tanto dano quanto o dos tiroteios. Evidentemente, que somos invadidos por uma raiva muito grande quando sabemos de perversões, as piores e inimagináveis, cometidas pelos meninos e homens armados. Aliás, ali também, o trabalho é análogo à escravidão no que se refere ao direito de pedir demissão. Não é permitido. Mas é muito bem remunerado. Muito. O que atrai, sobremaneira, a juventude sem perspectiva outra. Essa raiva que sentimos dessas crueldades que são praticadas em juris paralelos com decisões sumárias é legítima ser sentida. No entanto, não podemos nos afastar de nossas regras sociais, de nosso corolário jurídico. Se nos revoltamos com a execução com requinte de torturas praticada pelo traficante armado, como vamos comemorar a imitação desse comportamento praticado por quem deveria honrar a lei que leva o nome de seu empregador? É claro também que posso estar equivocada nesse olhar. Mas sei que nunca conseguiremos saber as respostas de tantas perguntas, algumas óbvias, outras técnicas e sofisticadas, nunca. Devo aceitar o não saber, tão duro de aguentar. Nossos parlamentares se ocupam de outras coisas. Formado por bancadas que não dialogam com a necessidade, por exemplo, de acabar com o muro múltiplo do Apartheid, nossos representantes compõem um congresso 5B. Já foi BBB, mas agora foram acrescentados mais 2 Bs. Existe bancada da bala, da bíblia, do boi, das bets e dos bilionários. Não existe a bancada da criança. Não há interesse, criança não vota para a permanência nas casas. Então, é problema da mãe, e ela ainda é culpabilizada por discursos machistas, “não soube educar o filho por isso ele se envolveu com o tráfico”. Retornando ao nosso objeto aqui, a dor das mães, dos filhos bebês ainda na barriga das mães, das irmãs, das tias, das avós, quem vai amparar esse sofrimento? Não podemos sair pela tangente dizendo que eles mereceram. Mas, elas não mereceram. Enterrar um filho é morrer em vida. É antinatural. Não estou falando de valor moral. Estou falando de humanicidade. Quem vai ser responsabilizado para o cuidado dessas mulheres e crianças? E a Responsabilização precisa incluir no amparo imediato, e, também, no acompanhamento necessário. Porque ninguém pense que aquela imagem macabra de uma fileira que parecia interminável de corpos inertes pela violência de armas letais, aquela imagem vai sair da mente de quem tinha envolvimento afetivo, mesmo que menos próximo, com aqueles meninos. O simples direito de ir e vir será restabelecido pelos bandidos amanhã? E, assim, os serviços do outro lado estarão garantidos? E, por quanto tempo será autorizado, pelos 2 lados, que essas mães e crianças podem chorar? E quem não teve filho morto na operação, pode chorar? Ou será taxado de defensor de bandido. Eu, não defendo bandido, mas não defendo barbárie. No fundamentalismo que mais uma vez se pronunciou, essa é uma difícil posição, possível posição.

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